domingo, julho 31, 2005

Almir Gabriel, "O Inesquecível”, de volta à cena

Os homens deveriam ser somente o que parecem. Se assim fosse, restaria comemorar a eventual candidatura do ex-governador Almir Gabriel (PSDB) ao governo do Pará, nas eleições de 2006. Como a prática, que é efetivamente o critério da verdade, por vezes contradita o discurso ético de "O Inesquecível”, conforme o epíteto cunhado pelos áulicos do ex-governador, convém avaliar, sem o emocionalismo dos palanques, o perfil político de Almir e o que brotou dos seus dois mandatos como governador, além de índices sociais pífios e da morte de 19 sem-terra na chacina de Eldorado dos Carajás. Eleito governador em 1994, disputando com o ex-governador Jarbas Passarinho (PP, então PPR), ele foi reeleito em 1998, quando impôs a única derrota eleitoral sofrida até aqui pelo ex-governador e hoje deputado federal Jader Barbalho (PMDB), em eleição pontuada por denúncias de uso da máquina administrativa do Estado pelo tucanato paraense.
Com um discurso de austeridade mais compatível com o médico de reconhecida competência que também é, notabilizado como um pneumologista que ainda ganhou a fama de ser um eficiente administrador na área de saúde, Almir tornou-se político convivendo, sempre que lhe foi conveniente, com personalidades e situações que costuma execrar para consumo externo, em nome da moralidade pública. Constata-se, assim, que a ética por ele cultivada como político assemelha-se ao líquido que toma a forma da jarra que o contém. Ou seja, a ética do tucano-mor do Pará é a ética da conveniência, esgrimida para satanizar seus eventuais adversários, mas prontamente deletada quando lhe é necessário mandar os escrúpulos às favas. Ele repele o ex-governador e hoje deputado federal Jader Barbalho, a quem acusa veladamente de corrupto, mas convive harmonicamente com o senador Luiz Otávio Oliveira Campos (PMDB), que é acusado de ter lesado em US$ 13 milhões o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que inclusive fez naufragar sua indicação para o Tribunal de Contas da União (TCU). “Pepeca”, como também é conhecido Luiz Otávio, foi eleito em 1998 pelo PPR, do qual é sucedâneo o PP, sendo apresentado ao eleitorado como “o senador do governador”.
Essa ética de resultados tem tudo a ver com as idiossincrasias de Almir, das quais resulta o perfil de um personagem que politicamente não tem luz própria, necessitando do calor da máquina administrativa (seja ela qual for) para se impor eleitoralmente, mas autocrata por excelência, irredutivelmente turrão e com ambição suficiente para arriscar movimentos ousados e até imprudentes. Esses traços foram evidenciados em 1989 ao sair candidato a vice-presidente da República na chapa de Mário Covas, pelo recém-fundado PSDB. Eleito senador em 1986 pelo PMDB, sob o patrocínio do então governador Jader Barbalho, em 1989, já no PSDB, ele amargou uma votação pífia em seu próprio Estado, em um vexame eleitoral constrangedor.
Depois da experiência de 1989, Almir disputou o governo do Pará em 1990, quando sequer chegou ao segundo turno. Em 1992 renunciou à candidatura a prefeito de Belém na reta final da campanha, a pretexto de desvios éticos que nunca explicitou, deixando os próprios tucanos e seus aliados em situação constrangedora, ao não identificar as fontes do seu desconforto. Em 1994 ele foi retirado do limbo político pelo ex-governador Hélio Gueiros, na época prefeito de Belém e que rompera com Jader Barbalho, migrando do PMDB para o PFL. Gueiros foi o grande eleitor de Almir, costurando uma ampla aliança que fez do tucano governador, em eleição definida no segundo turno. Para a vitória de Almir contribuiu o caráter plebiscitário que ganhou a disputa entre ele e Jarbas Passarinho, pessoalmente probo, mas indissoluvelmente associado a ditadura militar instalada na esteira do odioso golpe de 1964 que depôs o presidente João Goulart e jogou o Brasil nas trevas do obscurantismo.
Nas eleições de 1994, Passarinho foi candidato ao governo com o apoio de Jader Barbalho, que antecipou o término do seu segundo mandato como governador para sair candidato ao Senado. Ao se desincompatibilizar, Jader passou o governo ao seu vice, o empresário Carlos Santos, que é também compositor e cantor brega, além de apresentador de programas de rádio e tevê fiéis ao gênero que o popularizou. No governo, Carlos Santos conseguiu fazer uma administração calatimosa, em apenas nove meses de mandato-tampão.
Depois disso, Almir conseguiu ser reeleito governador do Pará, em 1998, sob uma avalanche de denúncias sobre o uso da máquina administrativa estadual e até do assalto as finanças de prefeituras do interior. De resto, fez seu sucessor, em 2002, elegendo governador Simão Jatene, secretário de Planejamento no primeiro mandato de Almir e secretário especial de Produção, no segundo mandato, quando uma reforma administrativa refez o organograma do governo estadual. Repetindo o que ocorrera em 1998, em 2002 sucederam-se as denúncias de uso da máquina administrativa estadual, algumas das quais foram devidamente formalizadas na Justiça Eleitoral e hoje ameaçam Simão Jatene com a perda do mandato.

1 Comments:

At 9:45 PM, Blogger 23x8 said...

Dizem inclusive,Barata,a respeito dessa história de endividar as prefeituras do interior com sua campanha,que Almir indiretamente foi o responsável pela derrocada de Furmam,em Tucuruí e pelo estouro das contas de Almeirim,onde Almir teria metido um fiado daqueles...e não reembolsou o cassado.

 

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