sexta-feira, julho 15, 2005

As estripulias do Landi da tucanagem

Pelo menos teoricamente subordinado ao secretário especial de Promoção Social, Gerson dos Santos Peres (PP) - a quem desconhece olimpicamente, a exemplo do que fez com quem precedeu o ex-deputado federal no cargo -, Paulo Chaves goza de uma autonomia que lhe permite ter uma interlocução direta com o governador, tal qual ocorria na administração de Almir Gabriel, ao qual devota perene gratidão: médico, foi o ex-governador quem ajudou a livrá-lo da morte, ao operá-lo quando sofreu um grave acidente de carro nos anos 70 do século XX. Essa autonomia pavimentou o caminho que lhe permitiu deletar as noções básicas de decoro e patrocinar o nepotismo de forma escancarada, no tênue limite que separa a arrogância da desfaçatez.
Cacifado por suas obras faraônicas, cujos custos sistematicamente extrapolam as estimativas iniciais, ele já foi comparado por Almir Gabriel, em um dos surtos de megalomania do ex-governador, a Antônio Landi, o arquiteto que legou a Belém obras belas e/ou suntuosas, hoje incorporadas ao patrimônio histórico e artístico do Brasil. Mas pela forma desabrida e desafiadora sob a qual pratica o nepotismo, Paulo Chaves, decididamente, está mais para Severino Cavalcanti, o folclórico presidente da Câmara dos Deputados, que defende escancaradamente o favorecimento a parentes.
O resgate arquitetônico promovido por Paulo Chaves, cujo maior dividendo é a visibilidade que obras conferem, provavelmente não está dissociado das suas eventuais pretensões políticas. Não por acaso o cronograma das suas inaugurações invariavelmente coincide com o calendário eleitoral. Em 2000, o que é emblemático, ele confessou a mais de um colega de secretariado a frustração por não ter sido ungido candidato do PSDB a prefeito de Belém. Na leitura que fazia naquela altura, nenhum nome dispunha de maior visibilidade que o seu, diante da recente entrega do Parque da Residência, ocorrida em 1998, da inauguração da Estação das Docas, feita próxima de meados de 2000, sob uma incandescente polêmica e farta publicidade oficial, e das obras do projeto Feliz Lusitânia, que incluíram a restauração do Forte do Castelo, do palacete episcopal e do Museu de Arte Sacra, na antiga igreja de Santa Alexandre, assim como dos imóveis de época anexos.
Com seu estilo imperial, o então governador Almir Gabriel optou, porém, pelo deputado federal Zenaldo Coutinho (PSDB), cujas contradições entre o discurso e a prática fazem dele uma espécie de Collor que não decolou eleitoralmente e cujo desempenho foi pífio no primeiro turno, apesar do acintoso uso da máquina administrativa estadual. No segundo turno das eleições de 2000 Almir Gabriel repetiu a derrota com o então deputado estadual Duciomar Costa (na época abrigado no PSD), vencido pelo prefeito Edmilson Rodrigues (PT), reeleito com uma minguada diferença de votos.
Mas se até aqui foi impecável no resgate arquitetônico, ou ficou próximo disso, como pretendem os tucanos, as realizações de Paulo Chaves são postas em xeque, a partir da relação custo x benefício. De resto, na avaliação dos seus críticos o titular da Secult deixou muito a desejar em matéria de política cultural. Na realidade, acentuam esses críticos, nos últimos 10 anos a política cultural no Pará ficou resumida a uma ação entre amigos, privilegiando artistas chapas-brancas e incluindo espasmodicamente eventos de repercussão, de preferência em anos eleitorais. Uma exceção à regra, louvada até por seus desafetos, foi a aquisição da biblioteca do escritor paraense Haroldo Maranhão, apontado como um dos maiores nomes da literatura brasileira contemporânea.
Seja como for, Paulo Chaves não negligencia o culto à personalidade. Na Estação das Docas, por exemplo, na altura do teatro Maria Sylvia Nunes, foi afixada, com as dimensões de um painel, a fotografia do secretário executivo de Cultura, em um provincianismo digno de Odorico Paraguassu, o histriônico personagem criado pelo dramaturgo Dias Gomes, prefeito da imaginária Sucupira e celebrizado pela TV Globo com a telenovela “O bem amado”, posteriormente transformada em seriado.