domingo, julho 31, 2005

A chacina de Eldorado dos Carajás

Mesmo que Almir Gabriel esteja livre das eventuais conseqüências penais do episódio, a chacina de Eldorado dos Carajás, com os 19 cadáveres de sem-terras mortos em confronto com a Polícia Militar em 17 de abril de 1996, é uma nódoa indelével na biografia política do ex-governador tucano. Pelo próprio passado de Almir não é honesto supor que ele deliberadamente tenha ordenado que os policiais agissem com violência contra os manifestantes, que obstruíam o tráfego na PA-275, que liga a PA-150 a Carajás, em um protesto contra a demora do governo federal em assentar suas famílias. Mas a imprudência que cercou a operação de desobstrução da estrada, por responsabilidade direta do ex-governador, justificam a conclusão de que ele acabou por coonestar a selvageria cometida pela Polícia Militar.
O episódio ganhou repercussão internacional, tanto mais porque os números desautorizam a versão inicial de um mero confronto. A operação que mobilizou 265 policiais, acionados para desalojar cerca de 1.500 sem-terras, deixou um saldo de 19 mortos e 45 feridos entre os lavradores, contra seis feridos entre os PMs. As imagens de tevê, feitas ao vivo, mostram que se os lavradores investiram contra um grupo de PMs – atirando paus, pedras, foices e machados, e fazendo ainda disparos com armas de fogo -, os policiais reagiram com uma selvageria acima da razão e dos limites, mesmo quando a massa de sem-terras já estava passível de ser dominada.
A brutalidade dos PMs era atestada pelo exame, mesmo superficial, dos corpos das vítimas mortas, como verificaram os jornalistas deslocados para Marabá, em cujo Instituto Médico-Legal ficaram os corpos. “Manchas roxas informam que tomaram chutes e pontapés, enormes buracos de bala e manchas de pólvora comprovavam que foram dados tiros à queima-roupa, membros mutilados e cabeças arrebentadas denunciam uma selvageria”, descreveu a revista “Veja”, em sua edição de 24 de abril de 1996, cuja matéria de capa foi justamente sobre o massacre de Eldorado dos Carajás.
De acordo com a mesma edição da “Veja”, uma perícia realizada pelo legista Nelson Massini, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), revela que nem todos os 19 mortos perderam a vida no confronto. Na avaliação do perito, pelo menos 10 – mais da metade das vítimas –foram chacinadas. Três morreram com balas na cabeça, em tiros a curta distância, prova inequívoca de que houve execução. Outros sete tiveram seus corpos retalhados a golpes de foice, segundo o mesmo perito, que registrou esmagamento de crânio, costas abertas e braços quebrados, indícios de que as vítimas foram liquidadas quando já estavam dominadas, sem condições de se defender ou reagir.
Com a credibilidade de quem é reconhecidamente uma das maiores autoridades em matéria de Amazônia, no número 138 do seu “Jornal Pessoal”, a mais longeva publicação da imprensa alternativa brasileira, o jornalista paraense Lúcio Flávio Pinto resumiu a imprudência de Almir Gabriel no episódio da chacina de Eldorado dos Carajás. “Os erros de comando cometidos pelo governador, entretanto, revelam cristalinamente sua forma de agir”, observa Lúcio Flávio, acrescentando que Almir Gabriel se limitou a reunir o secretário estadual de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, o comandante da Polícia Militar, coronel Fabiano Lopes, e o advogado Ronaldo Barata, presidente do Instituto de Terras do Pará (Iterpa), para formar seu juízo sobre a desobstrução da estrada. O jornalista sublinhou ainda que a ordem para a Polícia Militar desobstruir a estrada sequer passou pelo Estado Maior da PM, “onde poderiam ser introduzidos questionamentos técnicos”, e foi reforçada no fatídico dia 17 de abril de 1996, “com ênfase perigosa”, depois que a determinação foi procrastinada em 24 horas.
Se a operação foi imprudente e seus resultados trágicos, a postura de Almir Gabriel foi patética, para ser ameno. Caberia a ele, na condição de governador, assumir o ônus da desastrosa ação, ao invés de negar ter dado a ordem e ao mesmo tempo manter nos seus respectivos cargos o secretário de Segurança e o comandante da PM.
Convém recordar, a propósito, a postura assumida pelo então governador Hélio Gueiros, em 1987, quando a Polícia Militar, agindo com selvageria, desalojou um contingente calculado entre 1.500 e 2 mil garimpeiros de Serra Pelada, que interditavam a ponte rodoferroviária sobre o rio Tocantins. O episódio chocou a opinião pública, repercutindo nacional e internacionalmente, falando-se de 26 a 33 mortos, embora oficialmente apenas dois cadáveres fossem identificados. Hélio Gueiros teve a dignidade de assumir o ônus da operação, arcando com a responsabilidade que impõe a condição de governador.

1 Comments:

At 9:55 AM, Blogger 23x8 said...

Quem era o Procurador Geral do Estado na época da chacina?O mesmo responsável pela arrombada segurança pública hoje.

 

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