sexta-feira, julho 15, 2005

A cota pessoal do governador

Como seria previsível, o governador Simão Jatene tem sua cota estritamente pessoal no loteamento de cargos feito sob a égide do nepotismo. Dela fazem parte a filha, Izabela Jatene, uma irmã, a médica Rejane Jatene, e um primo, José Otávio Jatene, além da ex-mulher, Heliana da Silva Jatene. Em favor da irmã, que é secretária adjunta da Secretaria Executiva de Saúde Pública (Sespa), do primo, secretário adjunto da Secretaria Executiva de Indústria, Comércio e Mineração (Seicom), e da ex-mulher, Heliana da Silva Jatene, diretora geral da Escola de Governo, é justo mencionar o reconhecimento consensual à competência profissional dos três, ainda que a ascensão aos cargos que atualmente ocupam tenha sido turbinada pelo parentesco ilustre.
Quanto a filha de Simão Jatene, Izabela Jatene, no início do governo ela foi designada para fazer parte do tal Núcleo de Planejamento Estratégico, em tudo e por tudo semelhante a disco voador: só existe para quem nele acredita. Atualmente, segundo consta, ela está gerenciando o Pró-Paz, programa de combate à violência nas escolas, a respeito do qual ninguém sabe, ninguém viu, tal qual a Conceição da canção imortalizada por Cauby Peixoto. Aparentemente trata-se de um desses programas que, sem dispor de maiores recursos, serve de abrigo aos aspones, para recorrer à gíria hoje incorporada aos dicionários e que designa aquelas pessoas que ocupam cargos sem função real ou útil. Aspone é a sigla de assessor para porra nenhuma, .denominação que serve para designar, de forma irreverente, os beneficiários de sinecuras.
(O neologismo aspone foi cunhado por Ronald Russel Wallace de Chevalier, o folclórico e mordaz Roniquito, um intelectual brilhante, que pontificou na efervescente Ipanema dos anos 60 e 70 do século passado, invariavelmente turbinado por alto teor etílico, como conta o escritor Ruy Castro no livro “Ela é carioca”. O livro, editado pela Companhia das Letras, revela como o famoso bairro do Rio de Janeiro foi o epicentro da revolução de costumes que se disseminou pelo resto do Brasil.)
Mas Jatene não fica restrito ao escancarado exercício do nepotismo. Ele aparentemente é também hábil no tráfico de influência. Sabe-se que o filho, Roberto Jatene, antes de ser aboletado no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM), esteve abrigado no gabinete do desembargador Geraldo Lima, originalmente um petista de carteirinha, que chegou ao desembargo por uma inesperada indicação do então governador tucano Almir José de Oliveira Gabriel. A partir da sua ascensão ao desembargo, somada a divergências internas no PT, Lima passou por uma mudança assombrosamente radical, distanciando-se dos companheiros de militância petista, pelos quais é hoje execrado e hostilizado, e aparentemente descobriu inesperadas afinidades com o tucanato.