domingo, julho 31, 2005

Currículo revelador

Não por acaso Almir Gabriel é acusado, pelos seus críticos, de frequentemente resvalar para o oportunismo político. Seu currículo, por exemplo, revela que o ex-governador fez em 1975, em pleno anos de chumbo da ditadura militar, o Curso de Segurança Nacional e Desenvolvimento da Associação dos Diplomandos da Escola Superior de Guerra (Adesg), entidade que qualificava os quadros civis do regime autoritário e pavimentava o caminho da ascensão profissional deles.
Aparentemente, nada se teria a opor a essa opção de Almir Gabriel, não fosse por ele cultivada a imagem de progressista, capaz de conviver pacificamente com profissionais tidos como de esquerda e de ter sido próximo, nos seus tempos de estudante, do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o lendário Partidão, então clandestino. Almir, aliás, quando ainda universitário chegou a ser presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina do Pará e vice-presidente da União Acadêmica Paraense (UAP), entidades que despertavam a ira dos setores alinhados com a direita radical.
Até ser fechada pela ditadura militar, a UAP, convém lembrar, servia de epicentro da efervescência política universitária. Às vésperas do golpe militar de 1º de abril de 1964, mais precisamente a 30 de março, o auditório da Faculdade de Odontologia do Pará (onde era realizado o Primeiro Seminário Latino Americano e Democratização do Ensino Superior, o SLARDES, com apoio da entidade) foi invadido pelos jovens quadros da extrema direita, em um patético episódio de truculência do qual participaram, dentre outros, o então adolescente Paulo Chaves, hoje secretário executivo de Cultura, e Mickey Lobato, que viria tornar-se sogro do ex-vice-governador Hildegardo Nunes. O plano, que acabou frustrado por conta de um atraso de um contingente da Polícia Militar, previa a provocação de um tumulto, que ensejaria a presença da PM, a quem caberia empastelar com violência a reunião ali realizada, poupando apenas aqueles que portassem um lenço branco no pescoço – justamente os invasores, em sua maioria filhos de fazendeiros.
Ao ser deflagrado o golpe, forças do Exército não só invadiram a sede da UAP, como promoveram um quebra-quebra, prendendo universitários que lá se encontravam e não conseguiram fugir. A ação foi comandada, com selvagem arbitrariedade, pelo falecido coronel José Lopes de Oliveira, também conhecido como “Peixe Agulha” e que veio a tornar-se sogro de Paulo Martins, um competente arquiteto, que se transformou em um respeitado chef de cozinha e é um dos donos do restaurante Lá Em Casa, permanente point da classe média alta de Belém.

SAIBA MAIS. LEIA:

"1964. Relatos subversivos: os estudantes e o golpe militar no Pará" – Belém, editora dos autores, 2004.