domingo, julho 31, 2005

A perfidia recorrente

Uma das características mais acentuadas do político Almir Gabriel é justamente a perfídia, da qual ele frequentemente se vale e que é tratada pelos áulicos de plantão como suposta demonstração de habilidade política. Uma das vítimas desse traço do ex-governador foi o engenheiro agrônomo Hildegardo Nunes (PTB), secretário de Agricultura no primeiro mandato do tucano e vice-governador, no segundo mandato.
Leal e discreto, Hildegardo sofreu uma devastadora decepção tão logo foi deflagrado, nos bastidores, o processo sucessório. Desconhecendo o compromisso assumido de apoiar o nome que melhor estivesse situado nas pesquisas de intenção de voto encomendadas pelo governo, Almir passou a investir clara e indisfarçavelmente na candidatura do seu secretário especial de Produção, Simão Jatene, e a desconhecer solenemente seu vice. Naquele momento, as pesquisas sinalizavam que, dentre os nomes disponibilizados, o mais palatável para o eleitorado, embora necessitando ser melhor trabalhado, era justamente o do vice.
Quando Hildegardo valeu-se do horário político destinado ao PTB para anunciar sua disposição em sair candidato a governador, Almir reagiu indignado, passando a tratar seu vice como se este fosse um traidor, discurso logo incorporado pelo PSDB. Posteriormente, cometeu a suprema indelicadeza de desdenhar não só de Hildegardo, mas do pai deste, o ex-governador Alacid Nunes, em uma festa de confraternização natalina na granja Icuí, residência oficial do governador. Na ocasião, em seu discurso, embora sem nominá-los, definiu Alacid e Hildegardo como sendo, respectivamente, um que já tivera votos e outro que nem voto tinha.
A grosseria do gesto deixou Hildegardo amargurado, mas certamente essa não foi a primeira decepção do vice com o governador. A primeira foi, certamente, não ver contemplado seu desejo de vir a ser secretário especial de Produção, destino natural de quem Almir pretendia, conforme antecipava nos próprios palanques de campanha em 1998, fazer o interlocutor do governo junto ao setor produtivo. A pretexto de que teria missão mais nobre para o vice, o tucano confiou a Secretaria Especial de Produção (Seprod) a Simão Jatene, a quem chegou a louvar por supostamente pensar o Pará da mesma forma que ele, Almir.
Na mesma época em que frustrou as expectativas do seu vice de vir a ser o secretário especial de Produção, permaneceu silente quando seus marketeiros, alguns dos quais muito próximos de Jatene, vazaram para a imprensa que Hildegardo fora preterido em seu desejo de assumir a Seprod. Ao vazar o episódio, os marketeiros tinham o claro objetivo de desgastar a imagem do vice-governador. A inspiração da manobra foi atribuída a Simão Jatene, embora faltassem evidências mais palpáveis disso.