sexta-feira, julho 15, 2005

Tucano beneficiou a prole e maltratou o paraense

Por si só repulsiva, nas circunstâncias em que se deu - diante de uma conjuntura recessiva e do desemprego massivo –, o nepotismo do qual se beneficiou a prole de Almir Gabriel soou como afronta, só comparável à sua decisão, quando governador, de indicar para o Tribunal de Contas do Estado (TCE) Lílian Lúcia Cabral Campos, mulher do senador Luiz Otávio Oliveira Campos (PMDB), que é acusado de ter lesado em US$ 13 milhões o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o que fez naufragar sua indicação para o Tribunal de Contas da União (TCU). Dona de belas virtudes como filha, esposa e mãe, dona Lílian está longe de preencher os pré-requisitos fundamentais para vir a ser conselheira do TCE, o que provocou questionamentos judiciais que adiaram sine die sua posse.
Ao mesmo tempo em que amparava sua prole, valendo-se para tanto da máquina administrativa do Estado, nos seus oito anos como governador Almir Gabriel impôs um impiedoso arrocho salarial. Nesse período, a perda salarial média do servidor público estadual ficou em torno de 55%, segundo estimativas do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). O pretexto para tanto, repetido monocordicamente , era a necessidade de administrar com austeridade as finanças do Estado, o que não impediu que os índices sociais da administração Almir Gabriel tenham sido pífios.
Essa, aliás, foi uma das mais gritantes contradições de Almir Gabriel como governador: tido como excelente gestor de recursos, ele materializou obras até então engavetadas, como a Alça Viária e o Tramoeste, mas nenhuma delas teve efeito multiplicador de renda. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quando Almir Gabriel concluiu seu segundo mandato, o Pará, que em 1994 tinha o terceiro melhor Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Amazônia, havia desabado para o quinto lugar, à frente apenas de Roraima e Tocantins. Ao término do segundo mandato de Almir Gabriel como governador, o percentual de desemprego na população economicamente ativa do Estado ficava entre 16% e 18%, segundo estimativas do Dieese, de acordo com o qual a maioria dos paraenses vive hoje na faixa da pobreza, com 53,86% dos ocupados ganhando até, no máximo, dois salários mínimos.
Mas isso não é tudo, convém acentuar. Um estudo intitulado “Déficit Habitacional do Brasil - 2000”, elaborado pela Fundação João Pinheiro – a pedido do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) -, aponta que o déficit habitacional do Pará é de 233.622 unidades. Somente em Belém a demanda é por 117 mil imóveis. Revela o estudo da Fundação João Pinheiro que o Estado concentra 54% do déficit no Norte do País, é o campeão da região em domicílios rústicos e improvisados, tem mais de 12 mil famílias comprometendo até 30% de sua renda com aluguéis e possui mais de 166 mil famílias vivendo em regime de coabitação familiar.
A ironia suprema é que justamente na era Almir Gabriel, que é médico, o Pará passou a figurar entre os 12 Estados com déficit de leitos hospitalares, segundo apontou o IBGE. Dos 12 Estados com déficit de leitos, seis ficam no Norte (Amazonas, Pará, Amapá, Tocantins, Roraima e Rondônia), quatro no Nordeste (Ceará, Bahia, Sergipe e Alagoas), um no Sudeste (Espírito Santo) e um no Centro-Oeste (Distrito Federal).