quarta-feira, agosto 24, 2005

GETÚLIO 4/Controvérsia sobre a carta

O mais célebre texto atribuído a um presidente do Brasil, a carta-testamento de Getúlio Vargas, já foi reconhecida como “um primor de texto certo na hora certa”, conforme a definição do jornalista Roberto Pompeu de Toledo, da “Veja”, em um ensaio publicado na edição no 1843 da revista, de 3 de março de 2004 (www.veja.com.br). Para Roberto Pompeu de Toledo, o texto tem ressonâncias shakespearianas e revela, de forma indiscutível, a dimensão do gênio político de Getúlio, ao potencializar os efeitos do seu suicídio.
A carta-testamento, conforme relatam documentos do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, foi encontrada por Ernani do Amaral Peixoto, governador do Estado do Rio de Janeiro e genro de Getúlio, em cima de uma mesinha de cabeceira do quarto presidencial. O documento foi lido em voz alta por Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda, para um grupo de pessoas que se encontrava no Palácio do Catete e em seguida transmitido por telefone para a Rádio Nacional. Antes das 9 horas da manhã daquele trágico 24 de agosto a mensagem começou a ser irradiada para todo o País.
Controvérsia - Qualidades literárias à parte, uma controvérsia cerca a autoria da carta-testamento. Viceja a versão de que o autor da mesma seria, em verdade, o jornalista José Soares Maciel Filho, que teria cumprido assim seu papel de ghost-writer, que vem a ser o redator-fantasma, aquele que escreve discursos e outros textos para outro. Ou seja, o redator de aluguel que produz um texto para outro assinar.
O jornalista Roberto Pompeu de Toledo, da “Veja”, descreve Maciel como”figura destaca na corte getulista”, que inclusive ocupou as superintendências do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDE), antecessor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), que deu origem ao Banco Central (BC). “Sua glória, porém, advém do ofício de ghost-writer. Ele é lembrado até hoje, e continuará sendo lembrado por muito tempo, como o autor da carta-testamento”, salienta Roberto Pompeu de Toledo, para acrescentar: “Com esse texto, que fez sob encomenda, e deu para outro assinar, saiu da obscuridade para entrar na História.”
Testemunhos - O “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro”, do CPDOC, salienta que os depoimentos de Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Osvaldo Aranha, José Américo de Almeida e João Batista Luzardo, dentre outros personagens intimamente ligados a Getúloio Vargas e que com ele viveram a crise de agosto de 1954, são as únicas fontes de informação sobre a carta-testamento. “Apesar de existirem alguns pontos discordantes nesses depoimentos, todos são unânimes em atribuir a Getúlio a autoria da carta”, assinala um dos trechos do texto sobre o documento.
“Outro dado fora de discussão é a participação – maior ou menor – na elaboração do documento do jornalista José Soares Maciel Filho, o redator favorito dos discursos de Getúlio”, acrescenta o texto. Na versão oferecida por Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Maciel teria se limitado a inserir as cifras que o ilustram e a datilografá-lo. Já Miguel Teixeira afirmou que Osvaldo Aranha tivera um encontro com Maciel, no qual o jornalista confidenciara que Vargas o havia encarregado da redação final do documento, dando-lhe um pedaço de papel no qual estaria contida a idéia do manifesto e as frases finais. De acordo com Teixeira, o restante teria sido de responsabilidade exclusiva de Maciel.
Bilhete - Em torno da autoria da carta-testamento de Getúlio há ainda um episódio, que envolve um bilhete encontrado na mesa do gabinete presidencial e entregue a Alzira Vargas do Amaral Peixoto, filha predileta e fiel escudeira do presidente, na noite de 19 de agosto de 1954. O bilhete, escrito a lápis e com a letra de Getúlio, dizia: “A sanha dos meus inimigos deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter feito pelos humildes tudo o que desejava.” Seu conteúdo acabou aproveitado na carta-testamento, portanto.
No dia seguinte, 19 de agosto, Alzira interpelou o pai sobre o significado daquelas palavras, conforme seu próprio relato. De acordo com Alzira, ao ser questionado, Getúlio assegurou-lhe que não pretendia suicidar-se.
Cópias da carta – A carta-testamento teve mais três cópias conhecidas, além do exemplar encontrado no leito de morte de Getúlio. Alzira Vargas do Amaral Peixoto achou, entre os papéis retirados do cofre do pai, uma cópia assinada da carta, com erros de datilografia e correções, e uma cópia em carbono, sem assinatura. Encontrou também algumas anotações a lápis, com a letra de Getúlio, que constituíam a minuta do documento.
Haveria ainda um último exemplar da carta-testamento, que teria sido entregue por Getúlio a João Goulart, pouco antes da reunião ministerial da madrugada do dia 24 de agosto de 1954. Goulart, que viajaria naquele mesmo dia para o Rio Grande do Sul e em seguida para a Buenos Aires, teria guardado a carta sem lê-la. Segundo Alzira Vargas do Amaral Peixoto, Goulart divulgaria a carta na Argentina, caso a crise tivesse como desfecho um golpe militar.
Suspeita orquestrada – Imediatamente após a sua divulgação e conseqüente repercussão, surgiu a versão de que a carta-testamento seria apócrifa. A imprensa antigetulista, amplamente majoritária, e a UDN trataram de orquestrar a suspeita, fazendo circular a versão de que o documento teria sido feito por aqueles interessados em explorar a morte de Getúlio com fins eleitorais.
Na versão estimulada pelas forças antigetulistas, a carta apócrifa serviria para impedir a continuação das investigações contra Getúlio, iniciadas com o atentado da rua Toneleros. Isso protegeria, na referida versão, getulistas envolvidos em falcatruas.