quarta-feira, agosto 24, 2005

GETÚLIO 5/As repercussões do suicídio

O impacto da notícia do suicídio de Getúlio, potencializado pela carta-testamento, mobilizou as massas nas grandes cidades. O cortejo que acompanhou o corpo de Getúlio Vargas do Palácio do Catete para o Aeroporto Santos Dumond – de onde foi transladado para São Borja, no Rio Grande do Sul – reuniu a maior multidão da História do Rio.
A morte de Getúlio provocou sucessivas manifestações populares, com comícios denunciando o envolvimento norte-americano na morte de Getúlio e responsabilizando a UDN e a oposição. Armados de paus, centenas de populares percorriam as ruas, rasgando cartazes de propaganda eleitoral de candidatos antigetulistas.
A ira popular - No Rio, as sedes dos jornais “O Globo” e “Tribuna da Imprensa”, assim como a sede da Rádio Globo, foram atacadas por populares. Dois caminhões de entrega de “O Globo” foram incendiados. O ataque à embaixada dos Estados Unidos e ao prédio da Standart Oil foi rechaçado a bala. Os edifício da Light & Power e da Companhia Telefônica também foram atacados.
Em São Paulo, milhares de operários entraram entraram em greve de protesto e promoveram manifestações no centro da cidade. Cerca de 20 mil manifestantes tentaram depredar o edifício que abrigava os jornais dos Diários Associados, sendo contidos pela polícia. Em Porto Alegre, populares queimaram as sedes de jornais antigetulistas, “O Estado do Rio Grande do Sul” e o “Diário de Notícias”, assim como da Rádio Farroupilha, depredando ainda um banco e o consulado dos EUA.
Oposição perplexa - No plano político, as conseqüências do suicídio e da carta-testamento foram devastadoras. Tornada governo, com a posse de Café Filho na presidência da República, sob garantia das Forças Armadas, a oposição foi obrigada a recuar, diante da reação popular. “Na realidade, o trauma provocado pela morte do seu principal inimigo – mais do que inimigo, a ‘razão de ser’ de um partido fundado pelos que se lhe opunham – causou nos udenistas um sentimento ambíguo de depressão e euforia, fatais para uma ação política eficiente, no sentido de gerir os frutos da vitória”, assinala Maria Victoria de Mesquita Benevides em “A UDN e o udenismo – Ambigüidades do liberalismo brasileiro (1945-1965)”, livro que surgiu de uma tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo (USP).
“A sensação de desnorteamento, senão apatia, tornou-se evidente na campanha para as eleições legislativas de outubro de 1954, quando os líderes nacionais udenistas passaram a temer um certo tipo de reação popular, pela presença da ‘culpa’ lançada pelos getulistas”, salienta Maria Victoria de Mesquita Benevides. “A exploração da ‘carta-testamento’ conferia novo vigor ao getulismo (a aliança PSD-PTB seria a grande vitoriosa, um ano mais tarde) e do contraste com tal força carismática, surgia pálida a oposição udenista, traumatizada e perplexa.”
O espólio getulista – O conteúdo nacionalista da carta-testamento foi imediatamente incorporado ao programa do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em nota oficial, divulgada a 25 de agosto, a Comissão Executiva Nacional e a bancada federal do partido endossaram os “princípios consubstanciados na última carta do presidente Getúlio Vargas, que são: a) combate aos abusos do poder econômico; b) defesa do regime de liberdade social; c) luta pela libertação econômica do povo brasileiro”.
O Partido Social Democrático (PSD) colhe os frutos da sua estratégia de manter um certo distanciamento crítico, a famosa “omissão preventiva”, de um governo do qual fazia parte, mas pelo qual não se sentia prestigiado, porquanto cortejava a UDN ("Desde o momento em que teve de partilhar parte do governo com a UDN, o PSD já se sentiu lesado", declara Tancredo Neves, em depoimento para a História, citado por Lucia Hippolito). A própria postura de Getúlio estimulava a eventual omissão do PSD. Getúlio “jogava na prática com um comportamento apartidário e de deslegitimização das organizações políticas, advindo exatamente de see descrédito nas instituições”, observa Lucia Hippolito no livro “De raposas e reformistas – O PSD e a experiência democrática brasileira (1945-64)”. Isso permitiu ao partido preservar seu papel de grande negociador político, justificando o chiste cunhado por Maria Victoria de Mesquita Benevides, ao descrever a correlação de forças entre as principais legendas de então: “A UDN esperneia, o PTB cresce, mas é o PSD que dá o tom.”
O suicídio de Vargas e a sua carta-testamento marcam profundamente o próprio Partido Comunista Brasileiro (PCB). Até então, os comunistas faziam críticas ácidas ao governo de Getúlio, acusado de se submeter aos interesses dos Estados Unidos e de recorrer à violência e ao terror contra o povo brasileiro. Na edição de 25 de agosto o jornal comunista “Imprensa Popular” acusou o imperialismo norte-americano de ser o responsável pela morte de Getúlio e o governo Café Filho de ser formado por “agentes furiosos dos monopólios de Wall Street”.