segunda-feira, agosto 01, 2005

História 2

Em seguida, o editorial escrito por Paulo Maranhão, em torno da agressão da qual foi vítima, em um resgate da História feito pelo Pautalivre.com:

Ato porco de um governo porco

O sr. Armando Correia fez ler ontem pelo rádio, com ritmo pendular, que mandaria abrir rigoroso inquérito sobre um banho de trampa que, em noite de 11, fizeram aplicar no diretor das FOLHAS, sendo a matéria prima extraída das suas próprias entranhas pelos sodomitas oficiais.
Já que o poder público do Estado faz questão de que se conheçam os seus processos de represália contra os jornalistas que o combatem, vamos narrar o facto como na realidade se passou.
O sr. Armando Correia resolvera brindar, por essa forma, o diretor das FOLHAS, que naquele dia fazia anos.
Desde as 19,30 horas o sub-delegado de Polícia, por apelido Lamarão, em companhia de um investigador, estacionava no cliper da praça Justo Chermont, em posição de espionagem à residência do nosso companheiro. Um amigo deste, que também se encontrava no mesmo local, observando a insistência com que o referido indivíduo ali permanecia, tendo como alvo constante de curiosidade o ponto indicado, procurou-o para lhe comunicar o que ocorria e aconselha-lo que não saísse.
O diretor das FOLHAS, que se encontrava à porta da rua, agradeceu-lhe o carinhoso interesse, mas como já está numa idade em que se torna indiferente viver ou morrer, pois que há muitos anos transpôs o limite normal da existência humana, e Deus só não lhe assegurou quando lha concedeu, que esta seria eterna, foi onde tinha que ir e as 22,30 voltou. Ainda estava plantada, no “super-clipe Brasil”, a figura policial de Lamarão.
A vítima que ia ser das artes laboriosas do sr. Armando Correia tirou do bolso a chave da porta da sua residência e como enxerga pouco, procurava introduzi-la na fechadura, quando, ex-abrupto, recebeu um jacto fétido do líquido em que o mesmo Armando Correia se extravasara. O anônimo encarregado da façanha praticara-a de tal maneira atarantado – um pobre em mangas de camisa, como em mangas de camisa anda o poder público – que tratou de se distanciar, às carreiras, do palco da sua áfrica, e embarafustou pelo terreno onde, logo adiante, campeia livremente a tavolagem de João Baltazar. O nosso companheiro, pondo-se de frente, gritou ao fugitivo: - Volta, bandido, para receber o castigo que mereces!”Lá do seu miradouro assistira a tudo imperterritamente o sub-delegado Lamarão, que ali fora localizado, por ordem do Chefe de Polícia, o necessitado sr. Pereira Brasil, para defender o mandatário da porcalhada, em caso de revide. Este, porém, não se deu. O diretor das FOLHAS tinha nos bolsos apenas a caneta com que vergasta o lombo dos baratistas, e nada mais. Mas não precisaria de arma para se defender. A velhice ainda não lhe atrofiou os músculos.
Lamarão deixou o ponto de mira onde estivera, por mais de duas horas, guardando a retirada do intermediário de Armando Correia, atravessou a rua e foi confabular com aquele na tavolagem de Baltazar, aos fundos do Teatro Nazaré.
Paulo Maranhão os viu ambos em íntimo colóquio, de uma das janelas internas da sua casa, e depois retirar-se Lamarão, para ir dar contas, provavelmente ao sr. Francisco Brasil, e este ao sr. Armando Correia, de como se realizara a incumbência.
Esclarecemos agora ao autor intelectual do ato o que ele deve estar ardendo em brasa por saber. A sua trampa, contra a qual os perfumes da Arábia não bastariam para desinfectar ninguém, só atingiu o chapéu e a manga esquerda do casacão da vítima. Tudo o mais ficou livre do arremesso da matéria que é uma das armas da panóplia situacionista.
Quanto ao inquérito, obstrua com ele o canal o canal execratório de onde foi puxada a podridão da sua vingança.
Quem é que não vê, na claridade translúcida do ambiente político em que respiramos, a mão do canalha que manipulou a façanha?
Tivemos constrangimento de noticiá-la. Ela não nos desonra. Cada um dá o que tem, e o governo do nosso Estado não tem senão merda para dar. Foi ainda por amor a esta terra infeliz, tão envilecida e desmoralizada no conceito geral, que silenciamos em torno das fezes do sr. Armando Corrêa.
Por que inquérito sobre um facto do qual não houve queixa à autoridade nem divulgação pública? O governo não tinha, portanto, base para assumir essa atitude. De outras ocorrências, com repercussão ampla, temos sido, reiteradamente, vítimas, sem nenhuma providência legal. A pressa do inquérito denuncia a procedência do atentado. O que se objetivou foi escandalizar. Há, porém, mais. Logo no dia seguinte, pela manhã cedo, o sr. Francisco Brasil foi à Faculdade de Direito e narrou o facto a um dos lentes que ali se encontravam, homem de grande circunspecção, que de nada sabia e nada lhe perguntara. Ora, aquela e esta circunstância e ainda a presença obstinada do sub-delegado Lamarão no local, deixou clara a origem da ignomínia.
No tempo do velho Lemos – há quantos anos! – davam-se banhos nos adversários, mas de pixe. E o famoso dominador rolou para o ostracismo sob as pedradas e as vaias populares.
Salvou-o da morte Lauro Sodré. E os banhos eram de pixe, repetimos. Agora, são de merda. A vossa Rocha Tarpeia está à vista, bandidos!