terça-feira, agosto 30, 2005

PT X PT: "Sob velha direção"

"Tarso sai, Berzoini entra e Dirceu continua mandando" é a manchete da edição desta terça-feira, 30, de "O Globo" (oglobo.globo.com/jornal/), centrada na crise interna do PT, que é também do governo Lula. A manchete remete para a matéria assinada por Chico Oliveira, de Porto Alegre, que tem o sugestivo título de "Sob velha direção" e cuja íntegra segue abaixo:

”O presidente nacional do PT, Tarso Genro, não resistiu à queda-de-braço com o ex-ministro José Dirceu e anunciou ontem a retirada de sua candidatura à presidência do partido nas eleições de 18 de setembro. O ex-ministro do Trabalho Ricardo Berzoini, secretário-geral do PT e ligado a Dirceu, será o candidato do Campo Majoritário para presidir o partido. Tarso, que deixou o Ministério da Educação para presidir o PT em meio à pior crise da história do partido, queria a substituição, na chapa da qual fazia parte, de nomes identificados com o antigo núcleo dirigente — Dirceu entre eles. Como não conseguiu, alegou que isso não permitiria a “transição com ruptura”:
“— Eu não era um candidato da antiga maioria porque entendia que ela estava fragmentada, muito dissolvida, e precisávamos construir uma nova maioria no partido. E que isso (uma ruptura) teria que estar simbolizado numa modificação na chapa.
“Em entrevista no diretório regional do PT na capital gaúcha, Tarso anunciou que pretende iniciar um movimento político voltado para a refundação do PT e em defesa de um novo modelo de desenvolvimento. Esse novo modelo, afirmou, seria para um segundo mandato de Lula, cuja reeleição pretende pôr em discussão no fim deste ano. Tarso elogiou Berzoini, mas não se comprometeu a votar nele:
“— Ele é um bom quadro político e um companheiro fiel, de boa índole política. Tenho simpatia pelo companheiro Berzoini.
“E continuou:
“— Para essa transição negociada eu não sou adequado. Talvez o Berzoini seja, porque ele é líder sindical — disse, ressalvando que fica no cargo até o fim do segundo turno da eleição. — É a obrigação que assumi e vou respeitar.

Dirceu tem reações muito emocionais

“Perguntado se sua desistência representava uma derrota para Dirceu, disse que não. E, indagado sobre a manifestação do ex-ministro de que preferia morrer a deixar a chapa do Campo Majoritário, disse que ele tem reações “muito emocionais”.
“— O companheiro José Dirceu tem reações muito emocionais às vezes. Mas são reações emocionais que, na verdade, balizam uma posição política. O fato de ele usar uma expressão forte desse tipo para dizer que não sairia da chapa sinaliza o tipo de relação que ele tinha com o sistema de poder. E mantém com o sistema de poder do partido. Atribuo a sua resposta a uma metáfora um pouco nervosa. Ele tem o direito de ficar na chapa. A questão que se coloca para mim é da natureza da chapa e da sinalização política que ela dá à sociedade.
“Segundo ele, a permanência da antiga maioria no comando da nova direção não ameaça o futuro do PT:
“— O PT é extremamente forte. Mesmo que haja a hegemonia anterior, no que eu não acredito, porque vai sofrer algum tipo de modificação. O PT vai se recuperar. O PT vai indicar os responsáveis por esses erros políticos.
“Também pediu que a esquerda fique no partido:
“— Se a esquerda sair, nosso partido perde a tensão política democrática fundamental para produzir boas idéias. E aí vai provavelmente voltar para uma situação de comando burocrático de maioria quantitativa.
“Tarso disse que o grupo dirigente anterior deveria assumir a responsabilidade pela crise atual:
“— O grupo dirigente anterior e seus principais quadros deveriam assumir as responsabilidades públicas pelo que aconteceu, porque até agora não se tem responsáveis pelo que aconteceu. Até agora o único responsável é o Delúbio. Estou falando de responsabilidades políticas, não penais. E até agora não se tem responsabilidades políticas apuradas."
A matéria tem uma sub-retranca, com o título "Aqui mortos continuam governando vivo", assinada por Soraya Aggege e publicada abaixo:

“SÃO PAULO - A candidatura do deputado Ricardo Berzoini em substituição a Tarso Genro nas eleições petistas é mais uma vitória do deputado José Dirceu no PT. De acordo com dirigentes petistas ouvidos pelo GLOBO, Berzoini consultou Dirceu antes de aceitar a candidatura, a duas semanas e meia do pleito. Ex-dirigentes, como José Genoino, também aprovaram a substituição.
“— Aqui os mortos continuam governando os vivos — ironizou o secretário de Formação do PT, Joaquim Soriano, parodiando a frase de Augusto Comte (“Os vivos são sempre e cada vez mais governados pelos mortos”) ironizada pelo Barão de Itararé.
“Além de Dirceu, que segundo vários dirigentes nunca perdeu poder no PT, a substituição foi aprovada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no fim de semana. O presidente teria ficado irritado com Tarso por causa das declarações sobre a dificuldade de reeleição de Lula em 2006.
“— Foi uma vitória do Zé Dirceu, mas abençoada por todos, inclusive por Lula. Tarso comprou briga com todos os lados e acabou dando força ao Zé. Ele se transformou num problema para Lula — disse um dirigente.
“O grupo mais próximo de Dirceu na cúpula do Campo Majoritário e do partido referendou a indicação de Berzoini. O documento com a indicação de Berzoini foi assinado por três integrantes do grupo de Dirceu: Gleber Naime, Paulo Ferreira e Francisco Rocha. Foi distribuído na sede nacional do partido, ontem à tarde.
“Caso seja eleito, a independência de Berzoini na presidência poderá ser relativa, segundo o próprio Tarso. Muitos fazem coro a essa idéia.
“— Infelizmente, a renúncia de Tarso demonstra que pessoas como Dirceu e Delúbio não só não foram afastadas do PT como continuam controlado o Campo Majoritário — disse o deputado gaúcho Raul Pont, candidato nas eleições internas pela corrente de esquerda Democracia Socialista (DS).
“Mas há quem discorde:
“— Berzoini não será a rainha da Inglaterra, como disse o Tarso. A não ser que ele queira — disse Francisco Rocha.
“Berzoini não condicionou sua decisão à saída de Dirceu. Mas não escondeu que considera a saída espontânea de Dirceu mais confortável:
“— Seria melhor ele (Dirceu) se retirar, mas não colocaria isso como condição para minha candidatura.
“Por trás da candidatura de Berzoini está em curso uma tentativa de acordo no Campo Majoritário, que fará reunião em São Paulo na sexta-feira. Há várias propostas. Dirceu, por exemplo, estaria propondo que ele e Tarso fiquem na chapa com o compromisso de não assumirem cargos na executiva e no diretório Nacional, caso o grupo seja eleito.
“Para conter o mal-estar geral, o coordenador do Campo Majoritário, Francisco Rocha, quer pôr em votação secreta os nomes que deverão ou não sair da chapa. Além de Dirceu e Tarso, podem ser excluídos parlamentares e dirigentes mais envolvidos no escândalo do mensalão, como os deputados João Paulo Cunha (SP), Professor Luizinho (SP), Josias Gomes (BA), José Mentor (SP) e José Nobre Guimarães (irmão de Genoino), além do dirigente do PT-DF Valmir Lacerda.
“—Vamos decidir tudo nesta reunião. Inclusive quem sai e quem fica. Ou qualquer outro problema que surja até lá. De minha parte, não haverá condicionantes. Assim, não sabemos o que irá acontecer. Poderão excluir inclusive o meu nome, se quiserem — disse Rocha.
“Há quem defenda os acordos. O assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia, um dos primeiros nomes cogitados por Lula para presidir o partido, disse que ainda há tempo para acordos que evitariam tal votação.
“— Creio que, neste momento, as pessoas precisam pensar mais na gravidade da situação que em si próprias. Prefiro que não haja votação. Pode haver acordos até sexta-feira— disse Marco Aurélio.
“Para Marco Aurélio, Tarso errou ao colocar sua posição sobre Dirceu publicamente.
“— Deveria ter sido intramuros. Tarso errou. Mas muitos continuam errando — reclamou Marco Aurélio."