domingo, agosto 14, 2005

Uma postura imperial

São muitos os relatos feitos sobre a postura imperial de Joaquim de Magalhães Cardoso Barata no exercício do poder. É atribuído ao ex-governador, por exemplo, o chiste segundo o qual gravidez não é doença, que supostamente lhe serviu de argumento para recusar uma licença médica pleiteada por uma professora primária que se encontrava gestante.
Algumas dessas histórias sobre o comportamento autocrático de Barata foram confirmadas por Dalila Ohana, a viúva de fato do ex-governador, em depoimento ao jornalista e historiador Carlos Rocque. Na ocasião, ele relatou pelo menos dois episódios que falam por si.
Na sua primeira interventoria, relatou dona Dalila, Barata foi procurado em palácio por uma senhora, que portava uma promissória muito velha. Ela disse-lhe que havia emprestado seis contos de réis a um português, que se recusava a pagá-la. Barata então mandou chamar o português, que se fez representar por seu advogado. Barata repeliu a intermediação e exigiu a presença do português inadimplente. Diante do mesmo, o então interventor foi incisivo:
- Ou o senhor paga a promissória, ou o senhor vai preso!
- Mas esta promissória está prescrita – argumentou o português.
- Prescrita? O que é prescrita? – indagou Barata.
- Não vale mais – explicou o português.
- Ah, não vale mais? O senhor não tomou dinheiro emprestado a ela? Dou-lhe 24 horas para pagar – sentenciou Barata.
No dia seguinte, conforme dona Dalila, o português enviou a quantia que devia por um emissário. Barata mandou um oficial de gabinete à casa da viúva, para buscá-la. Ao recebê-la em palácio, entregou o dinheiro e determinou ao seu ajudante de ordens que, no próprio carro do governador, levasse a senhora a um banco, para que ela pudesse depositar a importância recebida.
Outro relato feito por dona Dalila, que retrata de forma eloqüente o culto à hierarquia de Barata, refere-se a um almoço do ex-governador com correligionários. Na ocasião, fazia muito calor e os convidados trataram de se desvencilhar dos paletós. Ao ver todos de mangas de camisa, por sobre a porta de vaivém, Barata subiu para o segundo andar, lavou as mãos e desceu de paletó. “Vamos almoçar”, disse Barata, conforme o depoimento de dona Dalila. “Aí foi aquela corrida aos paletós”, acrescentou ela.
Dona Dalila relata, prosseguindo seu depoimento, que no dia seguinte o mesmo grupo voltou a almoçar com Barata. Na hora em que o ex-governador chegou, estavam todos de paletó. Ele subiu para o segundo andar, lavou as mãos e o rosto, e desceu sem paletó. “Vamos almoçar. Podem tirar o paletó”, concedeu Barata, conforme conta dona Dalila, acrescentando: “Era assim o Barata. Ele só queria disciplina, ordem. Na véspera achara ser um abuso ser recebido sem paletó.”