quinta-feira, setembro 15, 2005

A cassação de Jefferson

Aparentemente sintonizado com as vozes das ruas, por 313 votos favoráveis, 156 contrários, 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos, a Câmara dos Deputados cassou ontem o mandato de Roberto Jefferson (RJ), ex-presidente do PTB. O deputado, acusado de montar um esquema de arrecadação de dinheiro em estatais comandadas por seu partido, foi o autor da denúncia do mensalão, que já provocou a renúncia de dois deputados, mandou outros 17 para a fila de cassações, derrubou a cúpula do PT, ministros e dirigentes de estatais. Jefferson ficará fora da vida pública até 2015.
Em seguida, a matéria de "O Globo" (oglobo.globo.com/jornal/) sobre a sessão de cassação de Jefferson:

Jefferson perde o mandato e direitos políticos

Maria Lima e Evandro Éboli

BRASÍLIA. Com 313 votos favoráveis, 156 contrários, 13 abstenções, cinco votos em branco e dois nulos, a Câmara dos Deputados cassou ontem o mandato de Roberto Jefferson (RJ), ex-presidente do PTB. O deputado, acusado de montar um esquema de arrecadação de dinheiro em estatais comandadas por seu partido, foi o autor da denúncia do mensalão, que já provocou a renúncia de dois deputados, mandou outros 17 para a fila de cassações, derrubou a cúpula do PT, ministros e dirigentes de estatais. Jefferson ficará fora da vida pública até 2015.
O plenário não comemorou quando foi anunciado o 257 voto pela aprovação do parecer do relator Jairo Carneiro (PFL-BA). Jefferson obteve o apoio de 32% dos 489 deputados presentes.
A sessão começou com a leitura do relatório de Jairo Carneiro, que defendeu a cassação do mandato. O deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL) abriu a sessão dizendo que não era um dia bom para ninguém. Por volta das 21h30, o primeiro-secretário Inocêncio Oliveira (PMDB-PE) decretou a perda do mandato.
Jefferson disse em seu discurso que nada foi provado contra sua honra e dignidade. O deputado afirmou que não muda nada do que disse e que conseguiu mostrar ao país o que é o governo Lula.
— Tirei a roupa do rei! Mostrei ao Brasil quem são esses fariseus, o que é o governo Lula e o Campo Majoritário do PT!
Jefferson atacou o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o deputado José Dirceu (PT-SP) e dirigentes do PT. Chamou Lula de preguiçoso e integrantes do governo de rufiões e proxenetas. O ponto alto do pronunciamento foi quando ele disse que era preciso atravessar a rua e investigar, do outro lado da Praça dos Três Poderes, a origem da corrupção que lançou o Congresso em uma sangrenta luta fratricida.
— Cumpri minha missão. Não arredo uma vírgula do que disse, não mudo uma palavra do que já falei. Saio de cabeça erguida. Com o sentimento da missão cumprida.
Jefferson foi aplaudido pela claque que ocupou as galerias e por parte do plenário. Mas nenhuma acusação nova foi feita contra Lula ou o governo. Em gestos teatrais, ele encerrou o discurso do alto da tribuna:
Jefferson disse que o governo Lula é o mais corrupto que conheceu:
— Estamos numa guerra fatricida, sanguinária, entre nós, quando a corrupção está na praça do lado de lá. De lá (do Palácio do Planalto) partiu a corrupção — atacou o deputado, interrompido por aplausos vindos das galerias e do plenário.
Ao falar de Lula, disse que ele não é desonesto, mas que lavou as mãos em relação à corrupção. Disse que o presidente, se não cometeu o crime de ação, cometeu o de omissão. Comparou Lula ao ex-presidente do PT José Genoíno, que negou conhecer o esquema de Delúbio Soares e Marcos Valério.
— O presidente Lula é uma espécie de Genoino na Presidência da República: não sabe o que lê, não sabe o que assina, não sabe o que faz. Ele é o Genoino do Planalto. E confiou a mãos erradas, ao Gushiken e ao José Dirceu, a confiança que o povo do Brasil depositou nele. Errou.
Levando o plenário e as galerias às gargalhadas, acusou Lula de pregiçoso.
— O meu conceito do presidente Lula é que ele é malandro, é preguiçoso... Não sei se já chegou da Guatemala. O negócio dele é passear de avião. Governar, que é bom, ele não gosta.