domingo, setembro 18, 2005

A cilada das cotas

A celeuma sobre a implantação do sistema de cotas sugere uma reflexão em torno do assunto. O sistema, relembrando, reserva 50% das vagas das universidades para candidatos que cursaram o nível médio integralmente em escolas públicas, e deste percentual de 50% destinado à alunos da escola pública, 40% serão destinadas exclusivamente a quem se declarar negro ou pardo. Tudo muito bonito, tudo politicamente correto.
Tomando para efeito de raciocínio (e apenas para efeito de raciocínio!) que se trata de algo justo, cabe, creio, ponderar sobre certos aspectos, em respeito ao saudável princípio do contraditório. Princípio que, no caso da implantação do sistema de cotas, certamente foi negligenciado pela subserviência de instâncias de poder mais preocupadas com a popularidade que comprometidas com as obrigações e deveres inerentes à administração pública. O que sinaliza para o preocupante viés da universidade continuar vendo-se como um ente apartado da sociedade, que por conta de uma suposta excelência se sobrepõe a esta. O que a faz tratar questões que afetam o conjunto da população sob a ótica dos guetos, campo fértil para sábios desconectados da realidade (porque circunscritos ao conhecimento livresco) e, particularmente, para sabidos (cujo único compromisso é com o arrivismo).

Aspectos perversos

O sistema de cotas, que aparentemente torna a universidade mais acessível àquele contingente penalizado pelas desigualdades sociais, embute aspectos perversos e dramáticos. Primeiramente, contribui para perpetuar o sucateamento do ensino fundamental, iniciado a partir do golpe militar de 1964. O poder público desobriga-se, convenientemente, de garantir uma formação decente aos alunos das escolas públicas, o que é um dever constitucional acintosamente desrespeitado e para a qual é pago pelos contribuintes.
Depois, na esteira disso, institui, fatalmente, o profissional de segunda categoria, aquele que vai chegar ao mercado de trabalho estigmatizado como beneficiário de um paternalismo hediondo, porque, como a caridade, fixa a vítima da penúria à sua condição de carente, ao invés de contribuir para libertá-la da adversidade. Mesmo porque, com todas as suas históricas deficiências, o ensino superior brasileiro não vai suprir sequer a médio prazo as lacunas herdadas de um ensino fundamental que prima pela indigência, para ser ameno, sem falar que este não é o seu papel. Logo, estaremos condenado, possivelmente, a produzirmos levas de profissionais com a qualificação presumível de um “doutor” Duciomar, capazes de se confundir com duas idéias concomitantes.

A divisão em raças

Em entrevista à revista “Veja” de 18 de maio deste ano, o escritor João Ubaldo Ribeiro, intelectual que é uma das maiores expressões da literatura brasileira contemporânea, adverte para o nível de miscigenação da nação brasileira e denuncia a tentativa em dividir o país em linhas raciais embutida no sistema de cotas. “Eu vejo essa idéia com profunda desconfiança e muito desagrado. Em minha opinião, ela representa um esforço para dividir este país, pela primeira vez, em linhas raciais. Tenho amigos diretores e donos de colégios que estão sendo obrigados a classificar os alunos por raça. Que retrocesso é esse? Já me chamaram e me chamam de vez em quando de negro. Eu me recuso a ser chamado de negro. Não porque tenha vergonha. Eu sou filho de uma família portuguesa pelo lado da mãe, neto de um português pelo lado do pai. A mulher do meu avô paterno era uma mulata acaboclada. O que significa que eu tenho sangue negro. Mas eu me recuso a usar o critério americano que diz que é negro todo mundo que tem uma gota de sangue negro. Ou seja, se o sujeito é filho de um zulu com uma sueca, por que a metade zulu tem de prevalecer? E aí vem o governo com essa bobagem de que não se pode usar a palavra "mulato" porque vem de mula. Vou dizer algo politicamente incorreto: Lula é mulato. Se bem me lembro, o cabelo dele era crespo, encarapinhado, no tempo em que era líder metalúrgico. Já hoje, presidente da República, ele tem cabelos sedosos”, assinala João Ubaldo Ribeiro, com uma coragem moral rara em tempos politicamente correto.
Na mesma entrevista, e de forma igualmente corajosa, João Ubaldo Ribeiro pondera que ao longo da história, os escravos sempre foram os vencidos, e não necessariamente os negros. “Na maior parte das civilizações, os escravos eram brancos. Os hebreus foram escravos dos egípcios, por exemplo”, ilustra.

Contradições da proposta

Em torno da implantação do sistema de cotas, João Ubaldo Ribeiro, que é baiano, expõe didaticamente as contradições da proposta, valendo-se da verve que lhe é própria. “Eu acho muito complicado classificar as pessoas por raças no Brasil. Eu não vejo TV, posso estar dizendo alguma bobagem, mas eu me lembro de que a Xuxa só aceitava loirinhas para paquitas. Suponhamos que baixassem no Brasil um decreto específico, dizendo: "Xuxa Meneghel é obrigada a reservar 50% das vagas de paquitas para afro-descendentes". Apareceriam no dia seguinte 20.000 loiras de olhos azuis mostrando o retrato de um vovô negão. Carla Perez, minha conterrânea, é uma loira artificial. Ela é mulata, filha de mulato, sem deixar de ser loira. Essa idéia das cotas embute, no fundo, uma visão equivocada: aquela que enxerga a questão da escravidão como um problema de origem racial”, acrescenta.
Logo, como aqueles que se opõem ao sistema de cotas não estão em má companhia, convém abrir o debate a respeito do assunto, sem as amarras do politicamente correto e da intimidação intelectual e/ou moral, tão a gosto das patrulhas ideológicas, para ressuscitar o termo cunhado por Cacá Diegues para denunciar a intolerância de esquerda. Imoral é a subserviência, que quando não depõe contra currículos e biografias, diz tudo sobre eles.

2 Comments:

At 2:17 PM, Blogger Lia said...

Os negros orgulhosos de sua raça, devem começar a questionar isso e exigir educação pública de qualidade.
Sou MULATA e concordo com você e com o grande Ubaldo. Valeu

 
At 9:28 PM, Blogger paroara said...

Se por faixa, por grupo, por etnia ou por cor, parece que o João Ubaldo esquece que essa classificação é antiga e bem presente na Bahia (Dona Canô: Venha ver, Caetano, aquele preto que você gosta... - Era Gil na TV!).
Ou acaso ele não é baiano, ou nunca respondeu ao questionário do IBGE em sua casa?

 

Postar um comentário

<< Home