quinta-feira, setembro 08, 2005

A dança das cadeiras

Em matéria assinada pelo jornalista Vasconcelo Quadros, de Brasília, sob o título "Sabe quem substitui os cassados?", o site "No Mínimo" (www.nominimo.com.br/) antecipa a provável dança das cadeiras, diante das eventuais cassações provocadas pelo escândalo do mensalão, a propina paga aos parlamentares da base de apoio ao governo Lula.
Em seguida, a matéria, com suas duas sub-retrancas:

Sabe quem substitui os cassados?

Vasconcelo Quadros, de Brasília



A faxina que as CPIs estão fazendo na Câmara dos Deputados promete levar a Brasília um time de reservas jamais visto na história política brasileira. Numa primeira fase, se nada realmente acabar em pizza e os deputados decidirem mesmo cortar de seu convívio os companheiros indicados * pelos relatores das CPIs dos Correios e do Mensalão, o inédito processo de cassação de mandatos vai promover a ascensão de 18 suplentes ** que, um a um, assumirão as vagas à medida que o plenário for defenestrando aqueles que receberam recursos operados pelo publicitário Marcos Valério e “não contabilizados” pelo PT.
Se tudo correr direitinho e os deputados atenderem as expectativas da população, uma revoada de suplentes tomará os corredores do Congresso, algo sem precedente em volume e diversidade partidária, encerrando um triste capítulo do espetáculo em que se transformou a política brasileira depois da eleição de Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara e da onda de denúncias que jogou o governo Lula da Silva e seus principais correligionários na vala comum da corrupção. Com exceção de períodos em que as ditaduras fecharam o legislativo ou impuseram cassações em massa, nunca um número tão grande de suplentes esteve tão perto de chegar ao poder. Como o relatório das CPIs é parcial, o grupo pode crescer – e há quem fale em algo em torno de três dezenas de cassados.
O PT, que antigamente era o primeiro partido a pedir a guilhotina na salvaguarda da nos costumes políticos, poderá abrir vagas para sete novos parlamentares - quatro de São Paulo e os outros três de Minas, Bahia e Pará. Se o relatório conjunto das CPIs dos Correios e do Mensalão transformar-se efetivamente em degola no plenário, o PT ficará com o recorde de titulares cassados, num único período, em toda a história democrática do legislativo brasileiro. E terá perdido, numa só tacada, os dirigentes que, até bem pouco atrás, mantinham o brilho de estrelas ascendentes da poder em Brasília - como o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha, e o líder da bancada, Paulo Rocha, um trio que hoje simboliza a fracassada articulação política do governo Lula e é associado às práticas suspeitas que os petistas sempre combateram.
Outros oito suplentes deverão assumir os postos deixados vagos por beneficiários do mensalão (a palavra que caiu na boca do povo para identificar os benefícios distribuídos por Marcos Valério e Delúbio Soares, mesmo sem que tenha ficado caracterizada a retirada mensal) nos dois partidos que o presidente Lula levou para sua base - PP e PL, cada um deles com quatro parlamentares ameaçados de cassação. O PTB de Roberto Jefferson deve trocar dois titulares, abrindo espaço para um suplente do Rio - que assumirá a vaga do próprio Jefferson, cujo processo de cassação já está em andamento - e outro de Minas. PMDB e PFL também terão de apelar para o banco de reservas se os relatórios iniciais da CPI forem aprovados – cada partido perderá, então, um titular.

Embaraço de uma, pressa de outro

Nem só desconhecidos passarão a desfilar na passarela do poder. As cassações anunciadas podem ressuscitar figuras que brilharam no cenário político em outros períodos ou, até mesmo, já estiveram no parlamento antes de estourar a crise que provocou a dança de cadeiras ao devolver à Câmara deputados que Lula havia feito ministros. Para as vagas petistas dos paulistas Dirceu, João Paulo, José Mentor e Professor Luizinho, por exemplo, serão escalados, por ordem de votação, Mariângela Duarte, Wagner Rubinelli, Jair Meneghelli e Ricardo Zarattini.
Com exceção de Meneghelli, que preferiu a direção do Serviço Social da Indústria (SESI) à cadeira de deputado desde o começo dessa legislatura, os outros três estiveram na Câmara por dois anos e meio e de lá saíram quando Dirceu, Ricardo Berzoini (ex-ministro da Previdência Social e Trabalho e Emprego) e Aldo Rebelo (Articulação Política) para á qual voltaram. Se as cassações forem efetivadas, os quatro voltarão como titulares. Meneghelli, que já foi presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), terá de optar, de vez, entre o mandato parlamentar e o cargo executivo.
“É uma situação constrangedora, embaraçosa. O escândalo não pegou um grupo qualquer. É a cúpula dirigente”, lembra Mariângela Duarte que, como primeira suplente do PT paulista, assumiu o mandato por dois anos e meio. Resistiu à queda de Dirceu e de Berzoini, mas se viu obrigada a voltar para casa quando Rebelo, mesmo contrariado, também teve de deixar o ministério e reassumir a cadeira de deputado. Professora de letras da Universidade Católica de Santos, Mariângela está há 19 anos no PT, 17 deles com mandato parlamentar - como vereadora, deputada estadual e federal – e se sentia constrangida em falar sobre o suposto envolvimento de companheiros com a corrupção, mas depois refletiu, pediu desculpas a seus eleitores e, hoje, assume uma posição crítica. “Não podemos cometer injustiças, mas temos de ser implacáveis com quem nos jogou nessa situação. Não dá para contemporizar”, diz a NoMínimo
A ex e – certamente - futura deputada pertence ao Campo Majoritário, corrente de Lula e dos principais dirigentes atingidos pelas denúncias. Hoje, mesmo sem mandato, segue cumprindo uma agenda de contatos políticos em Santos. Mariângela Duarte teve de se retirar de cena no momento em que participava na Câmara dos Deputados de discussões para levar em frente projetos que faziam parte de sua plataforma política, entre eles a reforma política - de cujo grupo era, desde o ano passado, a coordenadora -, a nova política de prevenção contra hepatite e a criação da Universidade Federal da Baixada Santista, que está saindo do papel.
O segundo suplente do PT paulista, Wagner Rubinelli, advogado e professor de direito da Universidade Estadual do ABC, não faz nenhum segredo de que gostaria de voltar à Câmara: “Meu receio é que o processo seja demorado e que, no julgamento dos deputados acusados, seja mantido em plenário o voto secreto.” Autor da Proposta de Emenda Parlamentar (PEC) sobre criação de um tribunal de justiça ambiental e do projeto que obriga o governo federal a informar aos interessados a localização de carros roubados tão logo sejam encontrados pela polícia, mesmo em outros estados, o ainda suplente Rubinelli está desiludido com o PT. Se voltar à Câmara, pode se filiar a outro partido de esquerda. “Estou decepcionado com o PT e, como diz Gabeira, acho que sonhei o sonho errado”, confessa a NoMínimo.
O PT teria ainda outra três substituições forçadas: o ex-líder do partido na Câmara, Paulo Rocha (PA), que seria trocado pela primeira suplente de uma coligação estadual, Maria do Socorro Gomes Coelho, do PC do B; Josias Gomes (BA), em cujo lugar deve entrar Sérgio Barradas Carneiro, que pertence ao PT, mas encabeça a primeira suplência da coligação; e José Magno (MG), que cederia lugar a um suplente da coligação, Alexandre Silveira de Oliveira, do PL mineiro.

Entre o constrangimento e o dever

Entre os partidos da base aliada do governo, a dança de cadeiras começou com o gesto do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de renunciar ao mandato para escapar à cassação dos direitos políticos. Sem conseguir explicar o destino do dinheiro e a diferença entre os R$ 10 milhões que Marcos Valério contabilizou como entregues a ele e os R$ 6,5 milhões que diz ter recebido, renunciou o mandado no início de julho. Em seu lugar, entrou o desconhecido empresário e bacharel em direito Fernando Estima, que se afastou do PP e hoje, deputado, está sem partido.
O médico Fernando Gonçalves, presidente do PTB do Rio, com suas bases eleitorais na Baixada Fluminense, é um dos que já podem fazer planos políticos como futuro deputado. Ele é suplente de Roberto Jefferson, aquele que “sublimou” o mandato pelo prazer de abrir a caixa preta do PT, confessou que recebeu R$ 4 milhões “não contabilizados”, detonou a galeria de notáveis petistas e colocou o governo Lula à beira do abismo. Fernando Gonçalves não se sente à vontade em assumir a vaga. Ao contrário de Jefferson - que fala sem freios e até solta a voz estridente em aulas matinais de canto clássico que tanto chamam a atenção de seus vizinhos, não quer contato com jornalistas. O máximo que tem dito a correligionários é que, mesmo constrangido, cumprirá aquilo que a lei determina. Ou seja: sai da reserva para ser titular. O PTB pode perder também o deputado mineiro Romeu Queiroz, que seria substituído pelo suplente José Rezende de Andrade.
A provável saída do deputado José Borba, único do PMDB paranaense com o mandato ameaçado, devolverá à cena nacional Reinhold Stephanes, um suplente que foi três vezes ministro - primeiro como presidente do INSS, na ditadura militar, durante o governo do general Ernesto Geisel e, depois, como titular da pasta da Previdência Social nos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Atual secretário de Planejamento do governador Roberto Requião, Stephanes não quer esquentar a cadeira na Câmara dos Deputados. “Se for necessário, assumo porque é minha obrigação legal. Mas não pretendo ficar mais de 30 dias como deputado. Meu compromisso é terminar o mandato junto com o governador Requião”, afirma o secretário. “A verdade é que estou me sentindo bem no que estou fazendo”, confidencia.
Em 2003, quando o PMDB estava briga por uma das vagas abertas no Tribunal de Contas da União (TCU), Sthepanes só não assumiu a cadeira de deputado federal porque o candidato paranaense não conseguiu vencer a queda de braço interna no partido. O pretendente a ministro do TCU era o deputado Osmar Serraglio, que o destino acabou colocando como relator da CPI dos Correios. Se os ventos mudarem e tiver que assumir a provável vaga de Borba, Stephanes atuaria na área da Previdência Social, sua especialidade. “A política do governo Lula tem sido um desastre. A máquina da Previdência foi aparelhada”, reclama. Caso não queira mesmo o cargo, o PMDB paranaense mandará para o Congresso o médico José Cláudio Rorato, representante da região de Foz do Iguaçu, desconhecido nacionalmente.
Outra vaga que provavelmente será aberta na Câmara para um suplente paranaense é a de José Janene, do PP, líder da bancada na Câmara. Num dos casos mais escandalosos em toda essa história do mensalão, seu assessor João Claudio Genu teria sacado mais de R$ 4 milhões nas contas do valerioduto, mas Janene diz que o partido recebeu apenas R$ 700 mil para pagar o advogado de um correligionário. Curiosamente, sua vaga seria ocupada pelo segundo suplente de uma coligação que envolve também o PTB e o PDT no Estado: Nelton Friederich, hoje no PT, titular de uma das diretorias da Itaipu-Binacional.
Também com o mandato ameaçado, o presidente do PP, Pedro Corrêa (PE), seria substituído pelo médico veterinário pernambucano Carlos Batata, primeiro suplente pelo PSDB na coligação com o PP. Ex-prefeito de Capoeiras e deputado federal por dois mandatos, até 2002, Batata foi vice-líder do governo Fernando Henrique na Câmara e, se voltar, pretende atuar na defesa do agronegócio.
Amigo pessoal de Corrêa, Batata jura que lamentará a saída do conterrâneo, mas diz que a alternância faz parte da política e garante que se sente “pronto” para assumir. Com as recentes denúncias de corrupção que envolvem o atual presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (presidente do PP até Corrêa assumir interinamente), a possibilidade de Carlos Batata assumir aumentou. Se não tiver explicações convincentes sobre as denúncias de propina, Severino também ficará com o mandato ameaçado. Batata não concorda com a cúpula tucana no encaminhamento cauteloso de uma saída para a crise atual: “A economia brasileira não vai resistir a um presidente fraco. Sou favorável ao afastamento do Lula”, diz.

Ambição, sonho e moralidade

Uma grande parte dos candidatos às vagas que se abrirão em breve na Câmara dos Deputados corre o risco de nem desembarcar em Brasília por conta de problemas com a justiça. É o caso do empresário rural Helmute Lawisch, primeiro suplente do deputado Pedro Henry (PP-MT). Lawisch está condenado a quatro anos de reclusão pelo juiz federal Julier Sebastião da Silva por envolvimento com uma mega fraude contra o Banco do Brasil no Mato Grosso - o escândalo ficou conhecido como o Caso Cooperlucas, por envolver a Cooperativa de Lucas do Rio Verde na contratação de empréstimos irregulares que, no total, beiram a R$ 200 milhões em todo o Estado. Afilhado político do governador Blairo Maggi (PPS), Lawisch entrou na coligação pelo PFL, mas hoje está no PDT.
O PP poderá ser obrigado também a substituir o deputado paulista Vadão Gomes, eleito numa coligação com o PL. Em seu lugar entraria o primeiro suplente Sérgio Olimpio Gomes, mais um desconhecido na política nacional. Dentro da mesma coligação, mas o PL deverá trocar ainda Wanderval Santos por um dos herdeiros do ex-governador paulista Ademar de Barros - aquele que inspirou o slogan “rouba, mas faz” e fez a alegria da esquerda armada ao deixar em poder da amante, Ana Capriglione, um cofre com US$ 2,5 milhões que a guerrilha urbana “expropriou”, num dos maiores assaltos feitos no país durante o período da repressão. Se Wanderval for mandado de volta para casa, em seu lugar entra Ademar de Barros Filho que, ao contrário do pai, um político de expressão nacional na década de 70, ainda não extrapolou o reduto paulista.
No lugar do líder do PL na Câmara, Sandro Mabel (GO), entraria um advogado e oficial da Polícia Militar goiana, com nome de mocinho de cinema – no registro civil, Rose Marx Wayne de Oliveira; na vida política, Capitão Wayne, do PSDB. O PL do Rio teria outro estreante na Câmara, o médico Reinaldo Grip Lopes, eventual substituto do deputado Carlos Rodrigues, conhecido por Bispo Rodrigues, eleito com apoio da Igreja Universal do Reino de Deus, mas praticamente excomungado pelo bispo Edir Macedo, dirigente máximo da seita. Hoje, o Bispo Rodrigues não tem partido.
O PFL pode perder o deputado Roberto Brandt (MG), mas devolveria à Câmara o tucano Elias Murad, que se notabilizou no parlamento por uma forte atuação contra o consumo e o tráfico de drogas. Integrante de CPIs que se ocuparam do tema, Murad apresentou projetos que se preocupam com a recuperação de viciados.
É, pois, bastante eclético o novo bloco que deve chegar à Câmara no meio de uma crise política de conseqüências ainda imprevisíveis. Seus integrantes prestariam juramento a uma Mesa Diretora de composição tão ruim que dificilmente se encontrará paralelo na história do legislativo, mas também teriam a rara oportunidade de se posicionar contra desvios éticos que marcam, até agora, essa legislatura. “Muitos são ilustres desconhecidos. Alguns ambicionam voltar, outros simplesmente vão realizar um sonho. O certo é que vão estar em conexão com a campanha de 2006 e terão a atuação pautada pela moralidade”, diz o cientista político Paulo Kramer, professor de ciências políticas da Universidade de Brasília (UNB)
A conferir.

* A fila de saída

Roberto Jefferson (PTB-RJ)
Romeu Queiroz (PTB-MG)
José Dirceu (PT-SP)
João Paulo Cunha (PT-SP)
José Mentor (PT-SP)
Professor Luizinho (PT-SP)
Paulo Rocha (PT-PA)
Josias Gomes (PT-BA)
José Magno (PT-MG)
José Borba (PMDB-PR)
José Janene (PP-PR)
Pedro Corrêa (PP-PE)
Pedro Henry (PP-MT)
Vadão Gomes (PP-SP)
Wanderval Santos (PL-SP)
Sandro Mabel (PL-GO)
Bispo Rodrigues (sem partido)
Roberto Brandt (PFL-MG)

** A fila de chegada


Fernando Gonçalves (PTB-RJ)
Mariângela Duarte (PT-SP)
Wagner Rubinelli (PT-SP)
Jair Meneghelli (PT-SP)
Ricardo Zarattini (PT-SP)
Maria do Socorro Gomes Coelho (do PC do B-PA)
Sérgio Barradas Carneiro (PT-BA)
Alexandre Silveira de Oliveira (PL-MG)
José Rezende de Andrade (PTB-MG)
Reinhold Stephanes (PMDB-PR)
Nelton Friederich (PT-PR)
Carlos Batata (PSDB-PE)
Helmute Lawisch (PDT- MT)
Sérgio Olimpio Gomes (PP-SP)
Ademar de Barros Filho (PL-SP)
Capitão Wayne (PSDB-GO)
Reinaldo Grip Lopes (PL-RJ)
Elias Murad (PSDB-MG)

1 Comments:

At 10:12 PM, Blogger Kafé Roceiro said...

Adorei seu blog. É de extremo bom gosto.

Se tiver um tempinho visite o meu:

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abraço,

karla.

 

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