quinta-feira, setembro 15, 2005

Fim de linha para Severino

O aparecimento de um cheque de R$ 7.500, endossado por sua secretária particular, Gabriela Kênia e entregue à Polícia Federal, prova o que o presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti, vinha negando com veemência: o recebimento de propina para renovar a concessão de um restaurante da Casa e sela o seu destino político, conforme relata "O Globo" (oglobo.globo.com/jornal/), em sua edição desta quinta-feira, 15, cuja manchete resume o assunto: "Severino: renúncia ou cassação".
Em seguida, a matéria de "O Globo" sobre esta quarta-feira histórica no Congresso:

Um dia para ficar na história do Congresso

Deputado de João Alfredo (PE), rei do baixo clero que chegou à presidência da Câmara exatos sete meses atrás, Severino Cavalcanti (PP) perdeu ontem as condições de continuar presidindo a Casa, na avaliação de partidos governistas e de oposição. Menos de uma semana depois de repetir três vezes “É mentira, é mentira, é mentira”, se entrincheirou na residência oficial, deixando de presidir a sessão de cassação do mandato do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), por causa do aparecimento de um cheque de R$ 7.500 endossado por sua secretária particular, Gabriela Kênia. O documento, entregue à Polícia Federal, provaria o que Severino vinha negando com veemência: o recebimento de propina para renovar a concessão de um restaurante da Casa.
O presidente da Câmara está agora entre a renúncia e a cassação, a primeira defendida por diversos partidos e a segunda já pedida ao Conselho de Ética da Câmara. Acuado, Severino pediu um prazo de até 72 horas para anunciar sua decisão. O PT e o PMDB, que até ontem resistiam a assinar o requerimento contra o presidente da Câmara, voltaram atrás e também pediram sua saída.
É um fato inédito o pedido de cassação de um presidente da Câmara no exercício do cargo, e ele acontece em meio à maior crise da história do Congresso, crise que derrubou também a imagem do governo Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Até se recolher ontem à residência oficial, Severino recorreu a um expediente escancaradamente usado pelos envolvidos nos escândalos do mensalinho, do mensalão, da corrupção nas estatais e do caixa dois de Marcos Valério: a negativa, mesmo frente a evidências, testemunhos e até provas.
Primeiro foi a acusação do ex-gerente do restaurante Fiorella, e Severino negou. Depois o dono do restaurante, Sebastião Buani, confirmou o pagamento de propina, e Severino mais uma vez negou. Em seguida, o documento que mostrava a renovação irregular do contrato por três anos, também contestado pelo presidente da Câmara. E ainda um extrato bancário que mostrava o saque de R$ 40 mil em dinheiro por Buani para, segundo ele, pagar propina a Severino. Mais uma vez, negativas. Até o cheque de ontem, que deu um xeque-mate em Severino. Desta vez, ele preferiu ficar em casa.
O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), não mediu as palavras:
— Severino não tem mais condições de presidir a Câmara, tem que se licenciar e responder a processo no Conselho de Ética.
Até então contrário à cassação, o líder do PT na Câmara, Henrique Fontana (RS), ontem já dizia:
— Neste momento ele não tem condições de continuar na presidência da Câmara, mas deve ter direito a ampla defesa.
— A alma já foi, agora só ficou o corpo -— afirmou o líder da Minoria, José Carlos Aleluia (PFL-BA).

Jefferson perde o mandato por 313 a 156

Foi um dia histórico também porque o plenário da Câmara cassou o primeiro envolvido na crise política, o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). Ao se despedir da Casa, já admitindo que perderia o mandato, o ex-presidente do PTB fez duras críticas ao Planalto, dizendo que o governo Lula é o mais corruptos de todos com os quais conviveu em seus 23 anos de vida pública e acusando o presidente de omissão. Às 21h34m, o primeiro-secretário da Câmara, Inocêncio Oliveira, declarou Jefferson cassado e com os direitos políticos suspensos por oito anos.
Em seu sexto mandato de deputado federal, o ex-líder da tropa de choque do ex-presidente Fernando Collor foi cassado por 313 votos sim — 56 a mais do que o necessário. Votaram contra a cassação 156 deputados, cinco optaram por anular ou votar em branco e houve 13 abstenções. Jefferson fica inelegível por oito anos contados a partir do término da atual legislatura. Como ela só termina em 2006, ele não poderá participar das eleições de 2006 nem das de 2010, só podendo tentar voltar à vida pública na eleição de 2015.