sexta-feira, setembro 09, 2005

O propinoduto de Severino

A coletiva do empresário Sebastião Augusto Buani, que mudou ontem sua versão inicial e confirmou que pagou aproximadamente R$ 128 mil em propina ao presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), para garantir a prorrogação por três anos do contrato de restaurantes e cantinas da rede Fiorella nas dependências da Câmara, é o tema da manchete da edição desta sexta-feira,9, de "O Globo" (oglobo.globo.com/jornal/). "Empresário confirma que pagou propina a Severino" é a manchete do jornal, que remete para a matéria sob o título ‘Entreguei o envelope a ele’, assinada pelo jornalista Jailton de Carvalho e reproduzida abaixo:

“O empresário Sebastião Augusto Buani mudou ontem sua versão inicial e confirmou que pagou aproximadamente R$ 128 mil em propina ao presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), para garantir a prorrogação por três anos do contrato de restaurantes e cantinas da rede Fiorella nas dependências da Câmara. Buani, que na segunda-feira, em depoimento na Câmara, negou ter pagado propina a Severino, revelou que começou a fazer os pagamentos em 2002, quando teria repassado R$ 40 mil ao deputado. O restante teria sido pago em parcelas mensais de R$ 10 mil, o mensalinho, ao longo de 2003, quando Severino era primeiro-secretário da Câmara. Na abertura da entrevista de Buani, um de seus advogados, Sebastião Coelho, disse que seu cliente, por estratégia de defesa, resolvera voltar atrás e contar a verdade sobre o caso.
“O empresário acusou o deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) de participar das negociações que resultaram no suborno. As declarações de Buani ratificam as denúncias do ex-gerente do Fiorella Izeilton Carvalho de Souza. Ele revelou detalhes das negociações, indicou testemunhas que poderiam confirmar o suborno e se dispôs a apresentar cópia de um cheque que usou para quitar parte da dívida com Severino.
“— Fui obrigado a pagar. Não tive outra alternativa — disse Buani.
“Ele fez o primeiro pagamento, de R$ 40 mil, no primeiro semestre de 2002. Severino teria exigido R$ 60 mil para renovar o contrato do Fiorella até o fim do ano. Seriam R$ 20 mil por ano. Depois de longa negociação, Severino concordou em baixar o valor para R$ 40 mil. Buani disse que pagou a propina com dinheiro sacado do Bradesco e da féria dos restaurantes. Buani disse que as notas foram postas num envelope pardo e entregue a Severino. O deputado nem se preocupou em esconder.
“— Entreguei o envelope pardo a ele, saímos andando pelos corredores da Câmara. Ele (Severino) com o envelope na mão. Não fez questão do sigilo — afirmou o empresário.

“Meses depois do acordo, a surpresa desagradável

“Meses depois, Buani disse ter tido uma surpresa desagradável. Uma carta da Mesa da Câmara anunciava a rescisão do contrato, mesmo após o acerto com Patriota e Severino. Em 31 de janeiro de 2003, data-limite para a confirmação da renovação nos termos pedidos por Buani, Severino endossou um reajuste de 30% nos preços da comida do Fiorella. Mas de novo exigiu contrapartida: um mensalinho de R$ 20 mil, alegando que precisava de dinheiro porque tinha despesas da campanha. Após tensa negociação, aceitou baixar a mesada para R$ 10 mil. O deputado estaria também de olho nos lucros do empresário.
“— Ele disse : “Você vai ficar rico. Vai ganhar muito dinheiro. Vê o que pode fazer para me ajudar. Estou saindo de uma eleição”. Ele falava, brincava, me dava um abraço — disse Buani.
“O empresário disse que ficou revoltado com a exigência da renegociação de uma propina já paga. Mas, sem alternativa, concordou em pagar os R$ 10 mil por mês a Severino. O mensalinho teria sido pago de fevereiro a outubro de 2003. Ele suspendeu a mesada porque, com o aumento das despesas, estava sem recursos para pagar até os salários de alguns empregados. O empresário disse que, em meio ao sufoco financeiro, teve que pagar a mesada de julho em cheque.
“Buani pediu cópia do cheque ao banco. Pode ser a primeira prova material contra Severino: o cheque teria sido descontado pelo motorista do dele. O dinheiro era recolhido pela filha, Gisele Buani, e levado à primeira-secretaria pelos garçons José Ribamar da Silva, Hélio da Silva e um terceiro identificado como Rosenildo. Ouvidos pelo GLOBO antes da entrevista, Ribamar e Hélio se disseram dispostos a contar tudo à PF.
“Buani disse que, depois de receber um apelo de uma filha, decidiu interromper as mesadas. Ao relatar a conversa, Buani chorou, lembrando que não tinha dinheiro para pagar funcionários por causa da mesada para Severino. Afirmou também que começou as negociações para renovação do contrato com Gonzaga Patriota. O deputado teria elaborado o texto, mais tarde assinado por Severino, que assegurava a renovação. Buani não soube dizer se Patriota recebeu parte do dinheiro, como declarou Izeilton.
“Buani concedeu a entrevista na Associação Comercial do Distrito Federal ao lado da mulher e de dois advogados. O auditório ficou lotado também por empregados do Fiorella. O delegado da PF Sérgio Menezes, que investiga o mensalinho, tratou do assunto com o procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza. O caso deverá ser oficiado pelo STF. Severino e Patriota têm foro privilegiado.”