quarta-feira, setembro 07, 2005

PT: a tentação totalitária

A tentação totalitária, dissimulada nos discursos de palanque, é o tema do ensaio de Guilherme Fiúza, no site "No Mínimo" (www.nominimo.com.br). No ensaio, o autor disseca, impiedoso, o corporativismo que peermeia a lógica petista de ser, escancarada na crise que atinge o PT e o próprio governo Lula.
Abaixo, o ensaio:

"Assim nascem as máfias

"Guilherme Fiuza

"Quando terminou o debate entre José Serra e Marta Suplicy na TV Globo, na campanha municipal de 2004, várias testemunhas viram o então ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, vociferando contra representantes da emissora. O mediador do debate, Chico Pinheiro, tinha cortado uma resposta da prefeita, candidata do PT, considerando que ela se afastara do objeto da pergunta – o que as regras do debate não permitiam. Dirceu interpelou os executivos da emissora duramente, diante do público que se retirava do estúdio, como se fosse o dono da estação de TV.
"Recentemente, o deputado José Dirceu, já não mais ministro, pediu à mesma emissora a cabeça de Arnaldo Jabor. O comentarista afirmara, a propósito das denúncias feitas pelo ex-assessor de Antonio Palocci, que Dirceu estava se movimentando contra o ministro da Fazenda. O comentário foi suficiente para Dirceu achar que Jabor tinha ferido a liberdade de expressão e ultrapassado os limites da convivência democrática.
"A crise no PT mostra que democracia é hoje uma das palavras mais gastas do vocabulário nacional. Ainda com a boca na botija, Delúbio Soares, o despachante do caixa dois, gritava que era tudo uma conspiração da direita contra os democratas. Arrecadou milhões e milhões com esse papo de democracia. Os xiitas do PSOL, que não podem ler um artigo criticando Heloísa Helena e já partem para o insulto, também apresentam-se como combatentes da democracia refugiados da opressão partidária. Quem serão os autoritários?
"O episódio de Dirceu no debate da Globo ainda é menos grave do que o seguinte. Afinal, ainda era um ministro central do governo, e esses cargos às vezes sobem mesmo à cabeça do ocupante. O espantoso, porém, é o ex-ministro e deputado prestes a ser cassado arranjar fôlego para pedir a cabeça de um funcionário da emissora. Não se trata mais de soberba ou arrogância do poder. Aparece ali, em estado puro, sua sanha pessoal de controle sobre fatos e instituições que o cercam. Pode-se imaginar o que faria com o natimorto Conselho Nacional de Jornalismo nas mãos. No mínimo, uma farta coleção de cabeças de comentaristas abusados.
"Democracia, nenhum outro nome foi usado tantas vezes em vão no Brasil. É o nome que vem dando o lastro moral para essas ficções chamadas partidos políticos: sempre apresentados como as pedras fundamentais da representação cívica, sempre flagrados como fachada para tramas inconfessáveis. O PT, apresentado a vida inteira como amostra do legítimo organismo democrático, expõe agora sua vocação essencial: a de lavanderia de reputações.
"A direção do partido já decidiu que não vai punir nenhum de seus filiados envolvidos em operações de caixa dois e recebimento de mensalão. Por que não vai punir? Há alguma justificativa clara disponível ao grande público? Nenhuma. O partido apenas se reserva o direito de comportar-se como entidade privada e lidar com seus membros como bem entender. O mundo não tem nada com isso. Mas está vendo tudo, e o que se vê é uma entidade protegendo seus filiados já não mais à luz de uma causa, de um programa, de uma afinidade política que seja. O PT acoberta seus infratores única e exclusivamente por uma lógica de sobrevivência grupal, familiar. Os petistas são protegidos porque são petistas.
"É uma lógica idêntica à da máfia. O conjunto de valores institucionais existe para preservar a célula, a teia. O código de lealdade inviolável é posto acima de qualquer outra lei, de forma que a integridade do grupo sempre prevaleça sobre o meio externo, em quaisquer circunstâncias. Com o fim da bandeira de oposição à ditadura militar, a derrocada da luta pela ética na política, a falência do combate à fome por inanição, parece ter sobrado ao PT a solidariedade da famiglia – um conluio de subsistência política na penumbra.
"Até onde um partido pode permanecer influente dessa maneira, zombando da legalidade e mirando em cabeças de comentaristas petulantes, não se sabe. A única certeza é que, naquilo que antigamente se chamava de democracia, uma agremiação assim não seria caso de política, mas de polícia.

"fiuza@nominimo.ibest.com.br"

1 Comments:

At 1:20 PM, Blogger paroara said...

Tenho dito que a situação é complexa e é bem maior do que o atual momento vivido pelo PT e o Governo Lula.
Se lermos o "Desmonte da Nação", relativo ao governo FHC, escrito pelo finado jornalista Biondi, teremos a dimensão do monstro que ameaça a democracia no Brasil.
No minha compreensão, os erros do PT se iniciaram exatamente ao aceitar a marqueteria dudiana de paz e amor. Com essa maquiagem equivocada (jamais serão aceitos nos salões das elites brasileiras) garantiram e garantem até hoje vida mansa aos tucanos, mas houvessem ali passado a limpo os atos oficiais e oficiosos dessas aves frívolas e peraltas, não estariam tão emporcalhdos, assistindo paralizados o linchamento do governo de sua maior liderança.
Esses fatos, hoje assistidos por nós com grande preocupação, devem servir de lição às esquerdas conseqüentes que se organizarão fora do PT(nada a ver com o esquerdismo de adolescência prolongada do PSTU e PSOL, após o encerramento do governo Lula em 2006.
O que todos os petistas em exame de consciência devem se perguntar é:
De que vale chegar ao poder e dele sair de cabeça baixa, coberto pela vergonha de uma prática política irresponsável, que permite um Jefferson, um Severino, um Nonô se tornarem protagonistas em primeiro plano da História do Brasil?
Melhor jamais te-lo ocupado.

 

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