domingo, setembro 04, 2005

Remo vai driblando a crise

Desemboca inevitavelmente na suspeita de gestão temerária o cotejo entre o desempenho da atual diretoria do centenário Clube do Remo e a administração passada, sob o comando da qual o Leão Azul amargou o vexatório rebaixamento para a Terceira Divisão do Campeonato Brasileiro, ocorrido em 2004. O rebaixamento potencializou a crise – financeira e de credibilidade – na qual submergiu o Leão Azul, .que tem a maior torcida do Pará e do Norte e a 16ª maior torcida do Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope).
Segundo fontes do próprio Remo, que hoje sobrevive basicamente das bilheterias dos seus jogos, em 2004 a folha de pagamento do futebol profissional do clube – incluindo a comissão técnica e o elenco de jogadores - chegou a custar algo em torno de R$ 300 mil mensais. Deu no que deu.
Quase em dia - Este ano, sem patrocinador e sobrevivendo basicamente das bilheterias de suas partidas - 30% das quais são bloqueados, para pagamento de dívidas trabalhistas – o Clube do Remo está conseguindo saldar seus compromissos, ainda que com algum atraso.
Esses atrasos, diga-se, são compreensíveis diante do hiato entre o término do campeonato estadual, em maio, e o início da disputa da Terceira Divisão, a 31 de julho. Nesse período, o Leão Azul ficou privado de sua principal fonte de recursos, que são as cotas que cabem ao clube nas partidas do time remista.
Pés no chão - O futebol profissional do Clube do Remo, cujo time já está antecipadamente classificado para a próxima fase da Terceirona, custa hoje cerca de R$ 120 mil mensais. Esse total inclui o pagamento do elenco de jogadores e da comissão técnica.
Sem patrocinador e privada das cotas de patrocínios que a ela deveriam ter sido pagas, mas cujos pagamentos foram antecipados à gestão passada, a atual diretoria azulina evidencia ser possível, com um mínimo de determinação e seriedade, administrar o passivo do clube.
Isso fatalmente suscita a pergunta que não quer calar: por que sucessivas administrações, dispondo de patrocinadores e de outras fontes de receitas, não conseguiram organizar as finanças do clube?,
Pertinente – Afinal, apesar de não dispor das alternativas das quais dispuseram as diretorias passadas, a atual diretoria vai driblando a crise.
Convém assinalar, a propósito,que os atuais dirigentes azulinos ainda foram surpreendidos com a cobrança de débitos ocultos, a respeito dos quais a diretoria passada não informou a atual gestão. Foi o caso, por exemplo, da dívida com um hotel que em 2004 hospedou jogadores de fora contratados pelo Remo.
Faltou rigor - Nesse episódio envolvendo o hotel que hospedava os reforços contratados pelo Remo, o débito foi pago pela diretoria passada com quatro cheques sem fundos> E pior, muito por que isso: sem previsão de receitas capazes de cobrir o total da dívida, de aproximadamente R$ 7 mil.
Ou seja: não houve, por parte da diretoria passada, nenhum compromisso com o rigor fiscal. Prevaleceu, ao contrário, o desdém ao rigor fiscal.
Menosprezo - Para usar uma expressão de uso corrente, na atualidade, vamos combinar: tanto menosprezo soa intrigante, em se tratando da diretoria passada.
Tanto mais porque o vice-presidente do Remo, na última administração do médico Ubirajara Salgado como presidente do clube, foi Ronaldo Passarinho, conselheiro do TCM (Tribunal de Contas dos Municípios), do qual chegou a ser inclusive presidente.
Em tese, pelo menos, o TCM vem a ser um órgão cuja natureza é preservar o culto ao rigor fiscal. Rigor presumivelmente caro também aos seus membros.
Perfil - Para os seus críticos como dirigente, o perfil de Ronaldo Passarinho explica a postura autocrática que cultivou à frente do Remo e que, para muitos, tanto contribuiu para o fiasco da gestão Ubirajara Salgado.
Sobrinho dileto do ex-ministro, ex-senador e ex-governador Jarbas Passarinho, um dos expoentes (no Pará e nacionalmente) da ditadura militar, ele teria incorporado como cartola, por osmose, a postura autocrática do tio ilustre. Jarbas, convém esclarecer, trata Ronaldo como se filho fosse.
Faz sentido - A leitura de seus críticos faz sentido.
Turbinado pelo parentesco com Jarbas, Ronaldo, que é advogado por formação, fez carreira como deputado estadual pelo PRP, antecessor do atual PP. O PRP foi, por sua vez, sucedâneo do PDS, a quem coube substituir a Arena como legenda que dava sustentação parlamentar à ditadura militar.
Coveiro assumido - Como dirigente de clube, Ronaldo Passarinho teve um gesto de rara dignidade no mundo do futebol, ao responsabilizar-se publicamente pelo rebaixamento do Remo para a Terceira Divisão. Ou seja, teve a coragem de assumir o estigma de coveiro do Leão Azul. Mas não contém a irritação, diante de qualquer referência nesse sentido.
Sincera, ou não, seja como fora autocrítica foi pertinente. Ronaldo Passarinho foi o homem forte do Remo, para não dizer o presidente de fato, na mais recente gestão do ex-presidente Ubirajara Salgado (2003-2005).
Coveiro oculto - Ubirajara Salgado, em sua última passagem como presidente do Remo, notabilizou-se, sobretudo, pela ausência. Ele foi o coveiro oculto do clube, ao se omitir diante das responsabilidades do cargo, avaliam lideranças azulinas.
Em 2004 Ubirajara Salgado relegou o Remo a um acintoso segundo plano, permanecendo absorvido pela sua conceituada clínica dermatológica e pela campanha a vereador por Belém, na qual teve uma votação pífia. OI tempo que sobrava era dividido entre a família e a diretoria da festa de Nossa Senhora de Nazaré, da qual faz parte.
Continuísmo - Intramuros circula a versão de acordo com a qual Ubirajara, apesar disso tudo, chegou a acalentar a idéia de reeleição, sepultada, diz-se nos bastidores azulinos, depois que foi alvo de manifestações de hostilidade de torcedores do Remo, indignados com o rebaixamento do clube para a Terceira Divisão. A fúria da torcida mobilizou a própria família do cartola remista, que tratou de persuadi-lo de embarcar na viagem da reeleição.
Na versão que imputa a idéia de continuísmo a Ubirajara Salgado, este e Ronaldo Passarinho teriam estimulado à exaustão uma candidatura mais identificada com a diretoria passada, diante do lançamento do engenheiro Raphael Levy como candidato pelo movimento “Novo Remo”. A chapa “Novo Remo” surgiu de uma dissidência branca que brotou das lideranças - históricas e emergentes - do clube azulino, reunindo jovens dirigentes e ex-dirigentes insatisfeitos com o imobilismo dos cardeais do Leão Azul.
Desgaste - O desgaste de Ubirajara Salgado e Ronaldo Passarinho no clube frustrou a manobra,. Isso acabou por fazer de Raphael Levy candidato único, como revela uma fonte digna de crédito.
Hoje, conforme é voz corrente entre alguns dos atuais dirigentes azulinos, Salgado e Passarinho monitoram o atual presidente remista, Raphael Levy, um empreiteiro falido e indisfarsavelmente deslumbrado com a notoriedade do cargo.
Traição - Se for essa a intenção de Salgado e Passarinho, pode-se antecipar que o terreno é fértil.
Decepcionadas com Levy, a quem em conversas ao pé do ouvido acusam de trair o ideário do movimento “Novo Remo”, significativa parcela das jovens lideranças do clube azulino afastou-se lenta e gradualmente do atual presidente remista, que acabou isolado.
Consolo - Na leitura de quem circula pelos bastidores azulinos, o alento diante da inércia de Raphael Levy é a possibilidade do Remo conseguir retornar à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro.
Um alento a curto prazo, é verdade, mas um alento, queira-se, ou não. Para quem se viu reduzido à estaca zero, um palmo de terra conquistado sugere um continente.
Travado - E é justamente a possibilidade do Remo retornar à Segunda Divisão que funciona como trava para o ímpeto de jovens lideranças azulinas dispostas a romper publicamente com Raphael Levy.
“O Clube do Remo é maior do que as divergências que nos separam”, resume um jovem dirigente do Leão Azul. “Por isso, nossa decisão de não causar turbulências que possam afetar o rendimento da equipe em campo”, arremata a mesma fonte.