quarta-feira, setembro 28, 2005

Rolo compressor petista 1

"Ação do Planalto racha ‘baixo clero’" é a manchete da edição desta quarta-feira, 28, da "Folha de S. Paulo" (acesso restrito a assinantes do jornal e/ou do UOL, no endereço eletrônico www1.folha.uol.folha.br.fsp/), que remete à matéria sob o título "Lula racha centrão na Câmara e libera verba para pasta do PL ", na qual é relatada a mobilização do Palácio do Planalto pela eleição de Aldo Rebelo (PC do B-SP) para presidente da Câmara dos Deputados.
Em seguida, a transcrição da matéria da "Folha":

Governo usa rolo compressor a favor de Aldo Rebelo; presidente da Casa será escolhido hoje

Lula racha centrão na Câmara e libera verba para pasta do PL

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
DO ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA

Na véspera da eleição do 104º presidente da Câmara dos Deputados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva operou um rolo compressor para minar a candidatura de Ciro Nogueira (PP-PI), rachando o "centrão" idealizado pelos representantes do chamado baixo clero, que reuniria PL, PTB e dissidentes de outras legendas.
O resultado mais favorável veio das negociações com o PL. Lula obteve o apoio do partido a Aldo Rebelo (PC do B-SP), esvaziando a articulação do alagoano João Caldas (PL), que pretendia retirar a candidatura em favor de Ciro.
A adesão do PL foi influenciada pelo anúncio, feito ontem, de que o ministro Alfredo Nascimento (Transportes), integrante do partido, terá um reforço de R$ 680 milhões para aplicar em obras.
Congressistas do PL ouvidos pela Folha disseram ainda que o Palácio do Planalto sinalizou que a sigla poderia receber mais um ministério se desse apoio em peso a Aldo.Com o reforço, a coalizão oficial, que reúne PT, PC do B e PSB, ganhou cerca de 40 votos (a bancada do PL tem 45 deputados).
Alfredo Nascimento foi pessoalmente comunicar a Aldo a adesão do PL. Ele foi um dos responsáveis em convencer Inocêncio Oliveira (PL-PE), que tentava se viabilizar como candidato do partido, a desistir. Também participaram da articulação o líder do PL na Câmara, Sandro Mabel (GO), e o presidente nacional da legenda, o ex-deputado Valdemar da Costa Neto, ambos envolvidos no escândalo do "mensalão".
Já em relação ao PTB, a estratégia foi diferente. Em audiência no Palácio do Planalto, pela manhã, Lula e o ministro petebista Walfrido Mares Guia (Turismo) pediram a Luiz Antônio Fleury (PTB-SP) que mantivesse a candidatura, em vez de apoiar Ciro Nogueira. E foram atendidos. "Minha candidatura cresceu muito de ontem para hoje. Vou até o fim", afirmou Fleury após o encontro, ao justificar o recuo na intenção de se unir a Ciro e a Caldas em uma candidatura de "centro".
Ciro e Fleury têm penetração no mesmo eleitorado. Com candidaturas pulverizadas, é mais provável que nenhum dos dois atinja votos para ir ao segundo turno. Nesse caso, a disputa deve ficar restrita a Aldo e ao oposicionista José Thomaz Nonô, considerado pelos governistas um adversário mais fácil de ser superado. Isso porque acredita-se que partidos envolvidos no escândalo do "mensalão", como PP, PTB e PL, não apoiariam um oposicionista.
No final da noite, Ciro Nogueira deu sinais de que sentira o golpe: "O Palácio operou direitinho", afirmou, em tom irritado. Aliados admitiam o naufrágio de sua candidatura: "Hoje o governo jogou certo. Foram profissionais", disse Nilton Capixaba (PTB-RO).João Caldas, abandonado por sua legenda, sinalizava que desistiria de concorrer. "O governo está usando o Diário Oficial, está tirando a eqüidade da eleição. Estão fazendo tudo o que não fizeram na eleição do Severino. É muito grave", queixou-se.

Projeções

Nas contas do governo, Aldo deve chegar ao segundo turno com algo entre 180 votos e 200 votos. A oposição calcula que Nonô terá entre 120 e 145 votos.
Ao longo do dia, fracassou uma tentativa de ressurreição da candidatura de Michel Temer (PMDB-SP). Peemedebistas disseram ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) que Nonô perderia no segundo turno e que só uma união em torno de Temer daria mais chance de vitória contra Aldo. Os tucanos preferiram manter o apoio ao PFL para pavimentar aliança nas eleições do ano que vem.
A ação de Lula destoa da ocorrida em fevereiro, quando o governo sofreu sua pior derrota no Congresso, com a eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE), egresso do "baixo clero", que derrotou de forma surpreendente o candidato do Planalto, Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Na ocasião, Lula evitou se envolver diretamente na operação política.
O ministro Jaques Wagner (Relações Institucionais) confirmou que houve forte atuação dos ministros, mas negou que pastas tenham sido ofertadas em troca de apoio a Aldo. "Conversei com os ministros de partidos aliados ao governo e pedi que buscassem votos em suas bancadas para Aldo. É um governo de aliança pedindo votos para o candidato da aliança. Não tem nada de imoral", disse Wagner.
Segundo ele, "se o governo tivesse ficado distante, seria criticado por omissão, como resolveu atuar para valer, é criticado por intromissão". Ou seja, "ia apanhar de qualquer jeito".
Acusado de receber propina de um concessionário de restaurante da Câmara, Severino renunciou depois de uma gestão-relâmpago de pouco mais de sete meses, como forma de fugir de eventual cassação.
Até ontem à noite, estavam inscritos dez candidatos -alguns podiam desistir até as 9h de hoje.
Vence a disputa hoje aquele que conseguir metade mais um dos votos válidos (que se dão pela exclusão dos nulos), com quórum mínimo de 257 presentes. Caso isso não ocorra, dá-se o segundo turno entre os dois mais bem votados.
A eleição está marcada para as 10h. Se ocorrer, a votação em segundo turno deve começar às 18h, e o resultado deve sair depois da meia-noite.
Outros candidatos que estavam na disputa, mas com pouca chance, são: Francisco Dornelles (PP-RJ), Alceu Collares (PDT-RS), Vanderlei Assis (PP-SP) e Jair Bolsonaro (PP-RJ).
(RANIER BRAGON, FÁBIO ZANINI, CHICO DE GOIS E KENNEDY ALENCAR)