quarta-feira, setembro 28, 2005

Rolo compressor petista 2

"Máquina do governo entra na luta por Aldo" é a manchete da edição desta quarta-feira, 28, de "O Globo" (oglobo.globo.com/jornal/), que relata os bastidores da mobilização do Palácio do Planalto para eleger Aldo Rebelo (PC do B-SP) presidente da Câmara dos Deputados.
A manchete remete à matéria sob o título "Mundos e fundos por Aldo", abaixo transcrita:

Mundos e fundos por Aldo

Gerson Camarotti, Isabel Braga e Cristiane Jungblut
BRASÍLIA

A véspera da eleição de hoje para escolher o presidente da Câmara foi marcada por manobras pesadas do Palácio do Planalto em favor da candidatura do deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva liderou pessoalmente a ofensiva para tentar garantir votos para Aldo, se reunindo logo de manhã com o ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia (PTB), e com o candidato do PTB ao comando da Câmara, Luiz Antonio Fleury Filho (SP). Quase ao mesmo tempo, no quarto andar do Planalto, o ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, recebia a cúpula do PL, que pediu, em troca do apoio a Aldo, maior volume de liberação de recursos do orçamento do Ministério dos Transportes, cujo titular é Alfredo Nascimento (PL).
Participaram do encontro com Wagner o presidente do PL, o ex-deputado Valdemar Costa Neto, o líder da bancada, Sandro Mabel (GO), e o ministro. Em reunião com a bancada do PL os três anunciaram a promessa do governo de “destrancar” o orçamento do Ministério dos Transportes para operações tapa-buracos e pequenas obras em rodovias. Reservadamente, os dirigentes disseram que a promessa era de liberação, ainda em outubro, de R$ 1 bilhão em duas parcelas.
— Precisamos liberar dinheiro para o ministério de qualquer jeito — disse Mabel.

PL cogitou negociar segundo ministério

O PL chegou a tentar negociar um segundo ministério, no caso o da Educação, em troca do apoio a Aldo, mas avaliou que não ficaria bem para a imagem da legenda barganhar nova pasta. Com o crescimento de boatos em torno da notícia, Jaques Wagner reagiu:
— Não tinha, não tem e não terá ministério nessa negociação. Estamos tratando do fortalecimento da base aliada. Essa é a argumentação que está sendo usada nas conversas com os partidos.
Surpreendido com a ação de seu partido, o candidato do PL, João Caldas (AL), partiu para o ataque, acusando o governo de usar a máquina para interferir na eleição:
— O governo está tirando a eqüidade do pleito. A Casa perde autonomia quando o governo age desse jeito. Isso é ruim para a democracia — protestou Caldas, abatido, para, no fim do dia, desistir da candidatura.
Nas conversas com ministros, o presidente Lula tem cobrado o empenho de todos por Aldo. Em fevereiro, quando Severino foi eleito, Lula se mantivera distante da disputa e, mais tarde, reconheceu que tinha errado.
De manhã, com a percepção do crescimento da candidatura do deputado Ciro Nogueira (PP-PI), o governo resolveu agir. A estratégia foi pulverizar os votos mantendo o maior número de candidaturas possíveis. Até as 20h50m de ontem, dez candidaturas estavam registradas. No fim da noite, além de Caldas, o deputado Francisco Dornelles (PP-RJ) também desistiu.
— Com dez candidatos na disputa fica claro que a Câmara perdeu qualquer centro de poder. Vai se construir uma maioria fluida para eleger Aldo ou Nonô e no dia seguinte já estará dissolvida — analisou o deputado Paulo Delgado (PT-MG).
O maior temor do governo era a ida de Ciro Nogueira para o segundo turno, que poderia motivar a repetição do efeito que levou à eleição de Severino, quando o baixo clero se uniu, com apoio da oposição e de petistas, para derrotar Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Apesar das vitórias de ontem, o governo estava em alerta até o fim da noite de ontem monitorando votos em todas as legendas.
Depois de acordar com um cenário negativo, o governo foi tendo vitórias ao longo do dia em favor de Aldo. A primeira mudança no cenário da eleição teve a interferência pessoal de Lula. Depois de um apelo do presidente, o candidato do PTB, Luiz Antonio Fleury Filho (SP), decidiu quebrar o acordo que havia com Ciro e João Caldas (AL) e anunciar que levaria sua candidatura até o fim.
O governo contou até com o apoio do petista Virgílio Guimarães (MG) — candidato dissidente em fevereiro — para levar o grupo de deputados do Câmara Forte a avalizar a candidatura do petebista. Com Fleury na disputa, a expectativa do governo é tirar de Ciro Nogueira pelo menos 20 votos.

Divisão também beneficia Nonô

Embora sem o apoio da parcela do PMDB que irá votar em Michel Temer (SP), tanto quanto Aldo, Nonô acabou beneficiado pela pulverização dos votos do baixo clero. A esperança do grupo é que, divididos, eles não consigam levar Ciro Nogueira ao segundo turno. Temer chegou à reta final da campanha enfraquecido.
Pelos cálculos do governo, a ofensiva já tinha dado resultado, com mais de 200 votos em favor de Aldo. A avaliação era de que ele estava com vaga garantida no segundo turno. Fleury, ao ser perguntado sobre o encontro, disse que avisou que sua candidatura estava mantida.

— Ontem (anteontem), o presidente Lula me ligou e eu fui lá hoje (ontem) com o ministro Walfrido. Tivemos uma conversa muito boa. Nossa candidatura está crescendo, ganhamos o apoio do Câmara Forte — disse Fleury, referindo-se ao grupo suprapartidário que, em fevereiro, apoiou Virgílio Guimarães (MG).

COLABORARAM Ilimar Franco e Maria Lima