quinta-feira, setembro 15, 2005

Severino: “Hoje, eu digo que não renuncio”

“Hoje, hoje, eu digo: não renuncio, vou lutar pelo meu mandato até o fim. Se eu enfrentar o processo de cassação, eu ganho no plenário. Tem gente que acha que não devo correr esse risco e que o melhor é eu disputar novas eleições no ano que vem. Mas repito: mesmo se estivesse sozinho, abandonado, coisa que não estou, eu iria enfrentar tudo isso. Se dependesse de mim, eu teria ido ontem presidir a sessão da cassação de Roberto Jefferson. Mas tenho que ouvir outras pessoas, muita gente, minha família, meus amigos, meus assessores, meus advogados e, principalmente, meus eleitores.”
A declaração é do presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), em entrevista concedida nesta quinta-feira, 15, ao blog do jornalista Jorge Bastos Moreno, no Globo Online (oglobo.globo.com/online/), e abaixo reproduzida. Nela, Severino insiste na inocência e dispara sua metralhadora giratória contra aqueles que identifica como seus algozes:

RENÚNCIA – “Hoje, hoje, eu digo: não renuncio, vou lutar pelo meu mandato até o fim. Se eu enfrentar o processo de cassação, eu ganho no plenário. Tem gente que acha que não devo correr esse risco e que o melhor é eu disputar novas eleições no ano que vem. Mas repito: mesmo se estivesse sozinho, abandonado, coisa que não estou, eu iria enfrentar tudo isso. Se dependesse de mim, eu teria ido ontem presidir a sessão da cassação de Roberto Jefferson. Mas tenho que ouvir outras pessoas, muita gente, minha família, meus amigos, meus assessores, meus advogados e, principalmente, meus eleitores. Em João Alfredo, a igreja católica e as igrejas evangélicas se uniram em preces por mim. Deus me iluminará. Estou passando por um tipo de provação. Algum coisa eu fiz para passar por esse tipo de provação. É a vontade de Deus. Eu tenho 74 anos. Meus pais morreram com mais de 95 anos. Eu não bebo, não fumo e não jogo. O jogo traz ansiedade e muitas emoções. Poderei ter mais alguns anos de vida pública. Se eu me reeleger, volto para a Mesa? Acho que não. Passei todos esses anos na Mesa. Como 1º secretário, 2º vice-presidente, Corregedor, sempre tive mais votos que os presidentes da Câmara. Se eu enfrentar a cassação, terei muitos votos. Mas não sei se devo exigir esse sacrifício dos meus amigos. Não sei se devo correr esse risco. O diacho é que se eu renunciar vão dizer que estou confessando uma culpa que não tenho. Eu quero ter a oportunidade de provar minha inocência. Mas há gente querendo que eu me eleja de novo para dar uma surra no Roberto Freire e no Raul Jungmann.

MOTIVAÇÕES - “Estou sendo vítima de uma disputa de poder. Tudo começou por causa daquela minha entrevista à Folha de S. Paulo, quando eu tive a coragem de dizer o que eu achava desse processo todo, defendendo punições diferenciadas. O que falei lá agora está sendo repetido pelos relatores. Foi o mote para que voltassem os olhos contra mim. Aí teve aquele aparte do Gabeira. Se tenho raiva do Gabeira? Não, ele cumpriu seu papel de oposição à minha administração. A disputa de poder é tão evidente que as articulações primeiras foram para ver quem ia me substituir. Aí começaram até a brigar. Há muito interesse contrariado. Eu assumi contestando acordos. Queriam me impor um contrato com Marcos Valério. Eu recusei. Queriam botar gente para fazer marketing aqui dentro com salário de 30 mil que não seriam pagos pela Câmara. Eu recusei. Comecei contraiando forças terríveis. Com isso, já economizei quase 200 milhões de reais para a Câmara,, ou seja, para o contribuinte. Eu lido com dois milhões de reais. Basta ver o apartamento que eu moro em Recife, que nem meu é. É da minha filha. A imprensa deveria vasculhar meu patrimônio e mostrar para a opinião pública. Aí veriam que não tenho nada. Sou um homem de dívidas, um devedor. Se eu estivesse em qualquer esquema, não vivia aí tomando dinheiro emprestado. Então, não estou no tal do mensalinho nem no mensalão e nem em esquema nenhum. Por isso é que penso: se eu renunciar, vão dizer que eu era culpado. Mas se eu me defender, provar minha inocência e me cassarem, o povo vai ver que é uma cassação política. Lá em João Alfredo, quando viram o cheque com o desconto de juros no verso, a população logo entendeu que aquilo não era propina. Eu só não falei antes porque não sabia, desconhecia esse cheque. Meu filho é que cuidava das finanças. Eu confiava nele como continuaria a confiar se ele estivesse vivo. Meu filho não era desonesto. Ele fez empréstimos para a s nossas campanhas. Tanto que se não tivesse morrido teria uma enorme votação, tal era a confiança e a credibilidade que ele tinha. Sua irmã o substituiu na campanha e foi eleita.

ALGOZES - “Eu sinceramente não sei que forças, além do PFL e PSDB, estão por trás disso. Sei que meus algozes principais não têm moral para pedir minha cassação. Vejam o Roberto Freire. O PPS recebeu 300 mil de Marcos Valério para a campanha do Ciro Gomes. Quem era responsável? O presidente do PPS. Quem é o presidente do PPS? Roberto Freire. O PP vai entrar com representação contra ele pedindo sua cassação. E o Jungmann? Fez tudo bonitinho, não fez? Sua prestação de contas na internet é transparente, não é? Ele se gaba muito disso, já foi elogiado por isso. Acho até que merece. Mas ele se gaba da forma, não do conteúdo. Um dos principais doadores dele é uma empresa que prestyava serviço para o ministério dele quando ele foi ministro. Ele deveria se sentir constrangido com isso. Se ele fosse esse vestal todo teria recusado alegando que não seria ético ele receber doações de empresas que prestaaram serviços para ele. Mas eles são oposição a mim, então podem fazer esse jogo. Tem uma frase do dr. Ulysses sobre ingratidão que se aplica muito a um outro caso que não vou falar porque não sou mesquinho. (O blog insiste em Severino acaba falando) Eu não queria dizer, mas toda hora está aí na televisão o Severiano Alves (PDT-BA) exigindo minha cassação. Eu fico triste e decepcionado. Esse homem vivia no meu gabinete. Chegou aqui endividado de campanha. Eu o ajudei. Procurei a direção de um banco particular e pedi empréstimo para ele, pra ele pagar até o fim do mandato. O banco não podia fazer isso. Tiveram que modificar as normas internas para poder dar esse empréstimo ao Severiano. Por isso é que ele está aí, agora mais calmo, mais tranqüilo, pedindo a minha cassação. Nestas horas é que a gente vê como são as pessoas. Veja o caso do Dornelles. Esse homem não deve nada para mim, mas está tendo a dignidade de vir à minha casa. Agora, estou esperando ele aqui para o café da manhã. Poderia até ser bom para ele ficar longe do Severino agora. Eu não poderia nem me queixar dele. Mas não. Esse é um homem digno. Tenho recebido solidariedade de muita gente. O governador Aécio Neves me telefonou, quis saber o que estava acontecendo. Foi gentil. Também não me deve nada. São justamente essas pessoas que aparecem nessas horas. E ainda vem o Pedro Correia dizer que tropeçou na entrevista, que caiu na casca de banada dos repórteres e, por isso, defendeu minha renúncia. Eu vou acreditar nisso? Eu vou acreditar que um homem com a sua experiência tropece em entrevista? Deveria asssumir que pediu. Tem tanta gente, amiga minha, pedindo, sugerindo isso. Eu não vou ficar com raiva do Pedro Correia sugerir isso. Gabeira? Repito, está no direito dele. Ele tem discordância comigo e acho bom. Eu nunca vou fazer as coisas que ele faz. Não é da minha índole, da minha formação cristã. Mas ele está brigando comigo no campo político. Ele pelo menos assumiu que quer me derrubar. Acho que ele está sendo injusto comigo, mas pelo menos não esconde que quer me derrubar. E os outros que estão aí amotinados, escondidos, de olho no cargo de presidente?"