sábado, outubro 08, 2005

Entenda os bastidores do nepotismo tucano no Pará

Para entender a gênese do nepotismo que se dissemina no governo Simão Jatene é necessário definir o perfil do atual governador do Pará e as circunstâncias em que ele tomou de assalto o poder, capazes de explicar ainda a ascendência exercida na atual administração pela primeira-dama, Ana Maria Chaves da Cunha Jatene, e pela ex-mulher do governador, Heliana da Silva Jatene , diretora geral da Escola de Governo. A ascendência da primeira-dama e da diretora geral da Escola de Governo deriva dos papéis que ambas exerceram na turbulenta campanha eleitoral de 2002, na qual Simão Jatene – historicamente um daqueles políticos de gabinete, que até então nunca exercera um mandato eletivo – elegeu-se por uma diferença mínima de votos, derrotando Maria do Carmo (PT) no segundo turno, com 51% dos votos, contra 48% obtidos pela sua adversária. Para garantir a vitória, o tucano contou com o apoio do PMDB, capitaneado pelo ex-governador Jader Barbalho, que em 2002 se elegeu deputado federal, após ser compelido a renunciar ao mandato de senador para evitar a cassação, iminente diante das acusações de envolvimento nas fraudes da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Por conta das denúncias de uso da máquina administrativa do governo Almir Gabriel (PSDB), formalizadas perante a Justiça Eleitoral, desde a sua posse Simão Jatene convive com a ameaça de ser defenestrado do cargo, com o agravante de não dispor de densidade eleitoral capaz de fazê-lo retornar aos proscênio político.
Jatene também é réu em uma ação ajuizada no Superior Tribunal de Justiça (STJ) pelo Ministério Público Federal, por corrupção passiva, diante da descoberta de que um propinoduto da Cervejaria Paraense S/A (Cerpa) regou os cofres tucanos com R$ 16,5 milhões, imediatamente antes, durante e logo depois das eleições de 2002, em contrapartida a benefícios fiscais concedidos à empresa. Juntamente com Jatene são também acusados de corrupção passiva, na ação ajuizada no STJ, Francisco Sérgio Belich de Souza Leão, atual secretário especial de Governo; Teresa Luzia Mártires Coelho Cativo Rosa, atualmente secretária especial de Gestão; e Roberta Ferreira de Souza, na época secretária executiva da Fazenda, em exercício. Dono da Cerpa, Konrad Karl Seibel, também conhecido como “Alemão”, é acusado de corrupção ativa e falsidade ideológica.
Foi sob esse cenário que dona Ana Maria e a doutora Heliana consolidaram seu prestígio na atual administração. Durante a campanha de 2002, dona Ana Maria fez a sua parte injetando ânimo no marido, sem abrir mão de estar ao lado dele em todos os momentos, como prescreve o tradicional papel da mulher dedicada e sempre a postos para proteger o companheiro. Dessa forma, independentemente da condição de primeira-dama, ela reforçou suas credenciais, tornando-se avalista inconteste da indicação de parentes para cargos estratégicos na administração do marido.
Já a doutora Heliana monitorou, com a ferocidade de um pitbull, os bastidores da campanha tucana, na qual acabou desempenhando um papel vital ao ir à televisão, no horário eleitoral gratuito, sepultar a versão petista de que fora abandonada pelo ex-marido em circunstâncias dolorosas. Com isso, neutralizou o marketing da baixaria esgrimido pelo PT, ao oferecer um testemunho – público e insuspeito – da dignidade pessoal de Simão Jatene. A versão trombeteada pelos petistas de que Jatene abandonara a esposa com câncer, com o agravante de trocá-la por uma mulher mais nova, era cochichada bem antes da campanha de 2002 por amigas e colegas de trabalho de Heliana. Mas a indignação destas não prosperou, não se sabe se porque esvaziada pelos fatos ou como conseqüência do poder de sedução que fatalmente adere ao eventual portador da caneta que nomeia e demite.