sábado, outubro 08, 2005

No Pará, o nepotismo não conhece limites ou pudor

Se chegar ao Pará, a cruzada anti-nepotismo fatalmente irá se defrontar com situações capazes de fazer corar anêmico, principalmente em se tratando do governo estadual. O governador Simão Robison Oliveira Jatene (PSDB), por exemplo, é um tucano que costuma manter sob suas asas protetoras um seleto grupo de parentes e contraparentes, beneficiário do nepotismo por ele patrocinado e que, em efeito piramidal, é reproduzido por alguns de seus auxiliares. Estão aboletados em cargos estratégicos do governo, ou beneficiando-se das benesses do poder, em forma de sinecuras, ou ainda profissionalmente turbinados por conta do ilustre parentesco, desde a filha até a ex-mulher de Jatene, passando por uma cunhada, dois cunhados, uma irmã, um primo, três ex-cunhadas e dois ex-concunhados.
Se as famílias dos atuais donos do poder no Pará vão (muito) bem, os índices sociais do Estado são alarmantes. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), o percentual de desemprego na população economicamente ativa situa-se entre 16% e 18%. Também de acordo com o Dieese, 53,86% dos ocupados vivem hoje na faixa da pobreza, ganhando até, no máximo, dois salários mínimos. O Pará - onde bebês morrem por falta de UTIs neonatal - figura dentre os 12 Estados com déficit de leitos hospitalares, revela o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda segundo o mesmo IBGE, o Estado, que até 1994 tinha o terceiro melhor Produto Interno Bruto (PIB) per capita da Amazônia, desabou para o quinto lugar, à frente apenas de Roraima e Tocantins. O Pará tem 233.622 famílias sem-teto, o que faz o Estado concentrar 54% do déficit habitacional da região Norte, aponta o estudo “Déficit Habitacional do Brasil – 2000”, encomendado pela Secretaria de Política Urbana do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O documento revela que o Pará é o campeão da região Norte em domicílios rústicos e improvisados, tem mais de 12 mil famílias comprometendo até 30% da sua renda com alugueis e mais de 166 mil famílias vivendo em regime de coabitação familiar. No Pará, constata o estudo encomendado pelo governo FHC, 17% dos domicílios são divididos por mais de uma família, o que representa o mais alto percentual de coabitação do País.
Mas o drama social embutido nesses números não parece intimidar os atuais inquilinos do poder no Pará. No governo de Simão Jatene, o nepotismo é diligentemente gerenciado pela primeira-dama, Ana Maria Chaves da Cunha Jatene, e pela diretora geral da Escola de Governo, Heliana da Silva Jatene, ex-mulher do governador e mãe do seu casal de filhos. Da cota estritamente pessoal do governador, no loteamento de cargos, fazem parte a filha, Izabela Jatene, gerente do Pró-Paz; um programa de combate à violência nas escolas, de parcas realizações e visibilidade zero; uma irmã, a médica Rejane Jatene, secretária adjunta de Saúde; e um primo, José Otávio Jatene, secretário adjunto Secretaria Executiva de Indústria, Comércio e Mineração (Seicom), além da ex-mulher, Eliana da Silva Jatene.
O governador do Pará optou por deixar o filho, Roberto Jatene, à margem do nepotismo, mas valeu-se do tráfico de influência para abrigá-lo no gabinete do desembargador Geraldo Lima, do Tribunal de Justiça do Estado do Pará, antes de remetê-lo para o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Originalmente um petista histórico, hoje rompido com o partido que ajudou a construir, Lima chegou a ser secretário municipal de Economia no primeiro mandato de Edimilson Rodrigues (PT) como prefeito de Belém (1997-2000). Na esteira de divergências internas no PT, Lima desligou-se do partido e passou por uma mudança ideológica assombrosamente radical após chegar ao desembargo, por indicação do então governador Almir José de Oliveira Gabriel (PSDB), descobrindo, a partir daí, inesperadas afinidades com o tucanato paraense.