segunda-feira, outubro 03, 2005

Os ingredientes perversos da informalidade

"O nó do trabalho informal" é o título da (excelente) matéria publicada na edição desta segunda-feira, 3, de "O Liberal" (www.oliberal.com.br), que revela a virtual extorsão imposta pelos atravessadores aqueles que sobrevivem do trabalho informal.
Em seguida, a matéria de "O Liberal":

O nó do trabalho informal

Sem capital próprio para comprar as mercadorias que vendem nas ruas, desempregados têm que se sujeitar ao preço cobrado pelos intermediários

A figura do atravessador de produtos no mercado informal é mais uma pedra no caminho de quem precisa enfrentar o desemprego. Um exemplo dessa realidade pode ser percebido entre os vendedores de bombons, de água e refrigerante ou no dia-a-dia dos produtores de farinha. Em cima deles há quem lucre até 100%.
Essa realidade que, no primeiro momento parece estranha, está escondida por trás do caótico mercado informal. Para ter acesso às mercadorias que vendem nos semáforos, nas feiras ou dentro dos ônibus, os vendedores recorrem aos atravessadores. O caso mais explicito é vivido pelos produtores de farinha. O supervisor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-econômicos (Dieese), Roberto Sena, explica que hoje 95% daqueles vendem farinhas nas feiras não são produtores. A maioria deles, segundo Sena, só ganha para custear despesas com a produção porque entrega a farinha para o atravessador que vai revender o produto na feira por até três vezes mais do que comprou. A saca de 60 quilos nas colônias de produção custa em média R$ 20, mas quando chega ao consumidor pode alcançar até R$ 90. “Perde quem produz, perde quem compra”, ressalta o economista, lembrando que o mesmo acontece com o pescado. O quilo do peixe é vendido pelo pescador muitas vezes por R$ 1, mas quando chega nas feiras pode custar até R$ 10.
No caso dos que vendem bombons ou água pelas ruas de Belém, a realidade não é diferente. O ambulante compra o produto nos atacadistas, das periferias.
O reflexo disso está na água mineral. Para comprar, o dono do depósito consegue ter acesso a uma caixa por R$ 3, mas ao repassá-la para o ambulante, ela chega a R$ 4.
Outro motivo que acaba onerando a vida do trabalhador informal é a contratação dos serviços por terceiros. “Via de regra quem está na rua não tem capital próprio. Então, alguém o contatrata e ele ganha comissão ou de acordo com o produto vendido”, comenta Sena. Para ele, o mais grave é que a maioria das pessoas usadas nesse processo são crianças, principalmente para vender bombons nos ônibus.
Na avaliação do supervisor técnico do Dieese, tanto o atravessador quanto o trabalhador do mercado informal são conseqüências do desemprego e da falta de políticas públicas para gerar trabalho nos últimos dez anos. Sena lembra que em 1989, 174 mil belemenses estavam inseridos na economia informal. Hoje, 16 anos depois, são mais de 360 mil. O crescimento é de 120.68%. Cerca de 10 mil das 360 mil pessoas que estão na economia informal são vendedores ambulantes. No Pará, 50% da população ocupada do estado está na informalidade, algo em torno de um milhão de pessoas. O faturamento de 56% das pessoas da economia informal é igual ou superior a dois salários mínimos por mês; apenas 2% faturam mais de R$ 2 mil por mês.
Mas não perde só o trabalhador desempregrado. Sena detalha que a falta de emprego formal traz conseqüências para toda sociedade. “São milhares de reais que se deixa de arrecadar com tributação”.
Para o trabalhador da informalidade, não há como fugir da figura do atravessador. Há dez anos na informalidade vendendo água, refrigerante e suco nas paradas de São Brás, José Benedito Silva, 45, comenta que só compra as bebidas de uma depósito perto da sua casa, que por sua vez, compra direto da distribuidora. Ele diz que só resta arcar com os custos porque não pode comprar mais barato, “uma vez que não possui firma registrada”.

1 Comments:

At 11:30 PM, Blogger paroara said...

A qualidade da reportagem contrasta com a esquizofrenia política do jornal, mais interessado em ser album diletante para dondocas e políticos de má qualidade, do que verdadeiramente fazer dessa concessão pública um instrumento dos interesses da sociedade paraense que transita do lado de fora da Assembléia Paraense e de outros lugares al mare e al fiume frequentados pela jeunesse dorée da terra.
São, por exemplo, ridículas aquelas notícias que vez por outra noticiam sob o título de Andando pelo Pará (o título em sí é um beco sem saída: andando ... mas, para onde? para que? por que? por quem? até onde?.
Impossível de não indagar se, com tanta sola de sapato gasta, algum produto digno de nota - projeto, editorial, pigarro, espirro ou pum - já poderia ter sido produzida além das fotos pelas fotos e de textos destituídos de qualquer eficácia prática.

 

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