quinta-feira, novembro 03, 2005

Mutação de conveniência

De resto, não há como levar a sério quem insulta alguém, como fez Hamilton Ribamar comigo em 1996, no restaurante Gio, vociferando ameaças, para pouco mais de um ano depois, no mesmo local, penitenciar-se publicamente, reconhecendo – em alto e bom som – minha idoneidade profissional, inclusive estendendo-me a mão, que recusei em apertar.
Quando insultou-me em 4 de agosto de 1996, no Gio, Hamilton Ribamar acusou-me de enxovalhar sua honra. Na verdade, esse argumento servia de biombo para a ira provocada pelas críticas aos seus desvios éticos como cartola e por ter sido publicamente revelado, como exemplo do seu perfil atrabiliário, que ele fora condenado, em primeira instância, pela morte de um detento, quando era delegado de polícia.
Na época, eu era o editor do “Diário Esportivo”, caderno de esporte terceirizado pelo “Diário do Pará”, que circulava toda segunda-feira. Ao aludir à condenação, o fiz para evidenciar que a truculência que provocara a demissão de Hamilton Ribamar da polícia permanecia presente no cartola que ele também era. Denunciei também na época a ignomínia que representou ele advogar contra o Remo, considerando sua condição de membro do Conselho Deliberativo do clube.
Na ocasião, após passar quase quatro meses ofendendo-me em programas de rádio e tevê, Hamilton Ribamar processou-me com base na lei de imprensa, em uma ação na qual só deu entrada após eu ter sido sumariamente dispensado do “Diário do Pará”. Na ação, ele não incluiu o jornal da família Barbalho, como era previsível e como virtualmente exige a lei, o que sugere a pior das covardias, que é a covardia moral. Para ser didático e melhor ilustrar a covardia moral de Hamilton Ribamar: de acordo com a lei de imprensa, instituida pela ditadura militar, são responsáveis pela matéria que enseje uma ação não apenas o seu autor, mas também o editor responsável do jornal que publicou-a, ainda que o texto seja assinado. No caso, pela lei seriam alvo da ação eu e o jornalista Carlos Vinagre, editor responsável do "Diário do Pará". Mas, como bom alpinista social, Hamilton Ribamar não ousou desafiar o jornal.
A aventura processual não prosperou, porque Hamilton Ribamar deixou de atender um pré-requisito básico da lei, que é anexar à denúncia um exemplar da página do jornal com a matéria que provocou a ação. Algo inimaginável de ocorrer em se tratando de um advogado nimimamente competente, do qual se espera pelo menos alguma familiaridade com a legislação pertinente ao processo.
Pouco mais de um ano depois, em 4 de setembro de 1997, no mesmo Gio, com o espalhafato que lhe é próprio, Hamilton Ribamar fez publicamente sua autocrítica, confessando achar-se um cartola “medíocre” e reconhecendo, na ocasião, que eu sou “um profissional sério”. Os insultos a mim dirigidos no passado recente foram etiquetados como “mero desabafo” diante da exumação de “um pequeno deslize da juventude”.
Em tempo: convém acentuar que o “pequeno deslize da juventude” de Hamilton Ribamar provocou a morte de um detento absolutamente indefeso, por ele agredido fisicamente.