domingo, dezembro 11, 2005

A fogueira de vaidades

“O Globo” deste domingo, 11, também revela, em outra sub-retranca, os bastidores da apuração do assassinato da missionária americana Dorothy Stang, morta em fevereiro deste ano. “O Globo” relata que embora legalmente a investigação estivesse a cargo da Polícia Civil, a PF trabalhou em paralelo, num inquérito próprio - cada uma das corporações tem um procedimento aberto para investigar o crime.
Abaixo, a transcrição da matéria publicada por “O Globo”:

Apuração rápida, apesar de disputa entre autoridades

Em um caso tão exposto à curiosidade pública, as vaidades mais cedo ou mais tarde teriam mesmo que aflorar, e, embora legalmente a investigação estivesse a cargo da Polícia Civil, a PF trabalhou em paralelo, num inquérito próprio - cada uma das corporações tem um procedimento aberto para investigar o crime. A Polícia Civil tentou evitar a imagem de que as autoridades estaduais não foram competentes, e tratou o crime como algo isolado, fruto de uma disputa por terra entre lados opostos e violentos. É uma forma de se livrar da admissão de que os conflitos agrários no estado estão fora de controle. Já a Polícia Federal tratou o caso num cenário mais amplo, considerando inclusive a possibilidade de o crime estar relacionado a um grande esquema destinado a grilar terras públicas em todo o Pará.
Homens do Exército foram enviados para a região, para dar apoio à ação das polícias Federal e Civil, em uma megaoperação que teve cenas cinematográficas de desembarques de tropas e ocupação de municípios.
Três pessoas foram presas, acusadas de envolvimento no crime. Rayfran das Neves Sales confessou que executou a missionária, mas contou versões conflitantes para o assassinato.
No primeiro interrogatório, o pistoleiro dissera ter executado Dorothy a pedido de um sindicalista amigo da freira: o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Anapu, Francisco de Assis Souza, o Chiquinho do PT, que já foi vice-prefeito da cidade. Entretanto, em acareação com os outros acusados Amair Feijoli da Cunha, o Tato, e Clodoaldo Carlos Batista, conhecido como Eduardo, Rayfran confirmou que foi contratado por Amair. O preço do crime: R$ 50 mil e dez cabeças de gado. O mandante teria sido Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, que se entregou à polícia após passar um mês e meio foragido.
Clodoaldo contou aos policiais durante a reconstituição do crime que Bida e Tato, combinaram com ele e Rayfran para que não os envolvessem no crime em hipótese alguma, mesmo que fossem presos.
Segundo Eduardo, Tato e Bida garantiram que contratariam bons advogados para defendê-los, se fosse preciso. Bida também teria dito que eles deveriam fugir para a fazenda de sua propriedade após o crime e que os ajudaria a fugir da região.