domingo, dezembro 11, 2005

A rotina da brutalidade

Na mesma edição, em forma de sub-retranca (matéria que complementa o texto de abertura, designado de retranca), “O Globo” rastreia a escalada da violência na disputa pela terra.
Em, seguida, a transcrição da sub-retranca publicada por “O Globo”:

Grilagem e morte: uma triste reprise

RIO, BRASÍLIA e BELÉM - Dizer que o Pará é uma terra sem lei já é lugar comum para quem acompanha os conflitos agrários no país, mas um assassinato ocorrido no dia 12 de fevereiro, no município de Anapu, a 600 quilômetros de Belém, sublinhou de modo especial esta situação, tanto pelo aspecto de ''morte anunciada'' do crime, quanto pela discrepância entre a brutalidade do assassinato e a fragilidade da vítima, uma delicada religiosa de 74 anos, americana naturalizada brasileira, vítima da grilagem de terras públicas no estado. A missionária Dorothy Stang, da Ordem Notre Dame, foi assassinada a tiros quando entrava numa gleba na área rural de Anapu, para dar apoio a agricultores acampados. Dorothy, que já havia denunciado ameaças de morte a ela e alguns agricultores da região, e chegou a entregar um documento ao secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, estava à frente de projetos de desenvolvimento sustentável com mais de mil agricultores da região.
Mais rumoroso caso desde a morte do líder seringueiro e ambientalista Chico Mendes, em 1988, o crime teve repercussão mundial. O governo federal se mobilizou para tentar esclarecer o mais rapidamente possível o caso, tratado como prioridade, e sua resolução virou uma questão de honra para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em uma reunião de emergência, com a presença de 11 ministros, o governo lançou um pacote de medidas ambientais para conter a violência no Pará e a exploração irregular de madeira em florestas.
Parte das medidas já estava em gestação no governo federal dentro do plano de combate ao desmatamento, e seu lançamento foi precitado pela morte de Dorothy. Uma das principais medidas é a interdição da exploração de madeira em terras da União na margem esquerda da BR-163 (Cuiabá-Santarém), no estado do Pará, num total de 8 milhões de hectares. Lula também assinou cinco decretos tornando área de proteção 5,2 milhões de hectares na Amazônia, abrangendo os estados do Pará, Acre, Amazonas e de Roraima. Desse total, 3,8 milhões estão na área de conflito no Pará: a Estação Ecológica da Terra do Meio (3,4 milhões de hectares) e o Parque Nacional da Serra do Prado (445 mil hectares), ambos perto de Anapu.
Madeireiros e fazendeiros do Pará reagiram com irritação ao pacote, e acusaram o presidente Lula de ter se tornado refém de organizações não-governamentais (ONGs) que defendem interesses estrangeiros na região. As duas principais entidades do setor criticaram, em nota, as medidas adotadas pelo governo, ''que proíbem a atividade produtiva em cerca de 15 milhões de hectares no Pará, a pretexto de proteger o meio ambiente''. Segundo madeireiros e pecuaristas, o governo foi autoritário e precipitado ao decidir implantar as reservas.