Pelos jornais 1
Marta, uma profissional experiente, retorna a “O Liberal”, do qual pedira demissão para trabalhar na administração do ex-prefeito de Belém Edmilson Rodrigues (PT).
Buscar a verdade, da forma tão profunda quanto seja possível alcançá-la, é o compromisso basilar do jornalismo efetivamente comprometido com sua função prioritária, que é servir de auditor da sociedade. Para tanto, bem mais importante que a suposta imparcialidade, é dispor da independência indispensável ao exercício de um jornalismo crítico e honesto, objetivo deste blog.
Um mito que resiste ao tempo. Assim pode ser definido o ex-governador Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, que entrou para a História como o maior líder político do Pará e cuja lembrança perdura viva passados mais de 46 anos da sua morte, em 29 de maio de 1959. Visceralmente autoritário, um traço da sua personalidade certamente potencializado pela própria formação castrense, mas também com um forte sentimento de justiça social, ele foi incensado pelos correligionários, odiado pelos adversários e venerado pelas massas humildes. Após pontuar a política paraense por quase 30 anos, para o bem ou para o mal, Barata assumiu os contornos de um mito, na esteira do seu pioneirismo administrativo, traduzido na interiorização do Executivo, através do governo itinerante, e pelas audiências públicas, com as quais abriu as portas do poder ao povo.
O populismo de Barata obviamente cevou o mito no qual ele se transformou. E certamente neutralizou, com a força do apelo popular que ganhou seu nome, as resistências das elites, que a ele se opunham. Em uma das suas leituras sobre o fenômeno que representou Barata, o jornalista e historiador Carlos Rocque, já falecido, recordou que Barata, ao exercer o poder de forma autocrática, desapropriava terras, para destiná-la a posseiros, e congelava os preços de medicamentos e aluguéis, posturas inéditas para uma época em que a questão social era tratada como caso de polícia. Isto é, ele se valia dos poderes discricionários que dispunha, ou se atribuía, tanto para intimidar seus adversários, como para beneficiar os excluídos de então.
Com um perfil próprio de caudilho, implacável com os adversários e com um rígido senso de autoridade e disciplina, Barata comandou com mãos de ferro o Partido Social Democrático (PSD) e exerceu com pompas e circunstâncias o poder. O respeito que inspirava nos seus correligionários e a força do seu carisma junto às massas inspiraram o chamado baratismo. Embora seu inspirador fosse pessoalmente probro, e inclusive tenha morrido pobre - sendo sempre citado como paradigma de honestidade pessoal -, o baratismo sempre esteve associado ao jogo do bicho e ao contrabando, que mantinham pródigos propinodutos nos quais se abastecia o PSD, legenda que politicamente se confundia com Barata no Pará. Este, presumivelmente, coonestava a corrupção, na perspectiva - muito freqüente entre os políticos de então - de que os fins justificam os meios. Barata, resumindo, era leniente em relação a corrupção, desde que não se deixasse contaminar por ela, embora dela se valendo como um recurso para manter-se no poder. Uma peculiaridade, diga-se, própria dos líderes de sua época, que não se valiam da corrupção em benefício próprio, como se tornou hábito nos tempos atuais.
Ao morrer, Barata deixou um espólio político que a rigor não teve herdeiros, diante da falta de carisma das lideranças que emergiram no PSD, legenda que abrigava os baratistas. Ao extinguir o pluripartidarismo e instituir por decreto o bipartidarismo, o golpe militar de 1º de abril de 1964 fez desaparecer o lendário PSD, depois de promover uma razia entre os principais quadros do partido, cujos direitos políticos foram cassados, a começar pelo governador Aurélio do Carmo, pelo vice-governador, Newton Miranda, e pelo prefeito de Belém, Luiz Geolás de Moura Carvalho. A eles sucedeu como vítima do arbítrio Hélio Gueiros, que também teve os seus direitos políticos cassados e ao retornar ao proscênio político, com a redemocratização, veio a ser eleito governador, em 1986, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), sucedâneo do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e depois prefeito de Belém, aí já pelo Partido da Frente Liberal (PFL), para o qual migrou após um ruidoso rompimento com o ex-governador e hoje deputado federal Jader Barbalho, com o qual posteriormente se reconciliou, abrigando-se novamente no PMDB.
Com a redemocratização, até por força da polarização entre PMDB e o Partido Democrático Social (PDS, sucedâneo da Aliança Renovadora Nacional, a Arena, como base de sustentação parlamentar do regime militar), o PSD ressurgiu absolutamente descaracterizado. Ficou reduzido, desde então, a uma legenda de aluguel de políticos menores. No Pará, por exemplo, durante algum tempo ele serviu de abrigo ao atual prefeito de Belém, Duciomar Costa (PTB), quando este ainda pavimentava sua ascensão política, valendo-se da filantropia como recurso para a captação de votos.
A força do baratismo foi tanta e tamanha, que mesmo diluída ela está na gênese de dois dos maiores símbolos do poder no Pará, antagônicos entre si. Um desses símbolos é “O Liberal”, jornal de maior tiragem do Pará e da Amazônia e que hoje integra as Organizações Romulo Maiorana, cuja emissora de televisão, a TV Liberal, é afiliada da Rede Globo. O outro símbolo do poder é o ex-governador Jader Barbalho, cuja formação política foi permeada pela ascendência de cardeais do baratismo e que mantém incólume seu prestígio junto a parcela mais humilde do eleitorado, a despeito dos percalços políticos enfrentados no plano nacional e com a Justiça, diante das denúncias de corrupção.
“O Liberal” foi fundado por Barata para defender-se dos ataques da “Folha do Norte”, o jornal do jornalista Paulo Maranhão e que em sua época teve proporcionalmente uma das maiores tiragens do Brasil, segundo revelação feita pelo jornalista Cláudio Abramo, já falecido e que foi um dos ícones do moderno jornalismo brasileiro. Um jornal partidário, editorialmente inexpressivo, em 1966 “O Liberal” foi comprado pelo empresário e jornalista Romulo Maiorana, já morto e do qual é viúva dona Lucidéia Batista Maiorana, sobrinha de Barata e hoje presidente das Organizações Romulo Maiorana (ORM), das quais é presidente executivo Romulo Maiorana Júnior .
Jader Barbalho também tem suas raízes políticas no baratismo. Seu pai, o jornalista Laércio Barbalho, já falecido e que teve os direitos políticos cassados pelo golpe militar de 1º de abril de 1964, foi baratista. O ex-governador e hoje deputado federal, por conta disso, teve sua formação política permeada pela presença de três cardeais do baratismo. Jovem ainda, ele conviveu de perto com o ex-governador Aurélio do Carmo, o ex-vice-governador Newton Miranda, este também já falecido, e Hélio Gueiros – todos três, naquela altura, no ostracismo político, por conta do golpe militar de 1º de abril de 1964.
Em sua juventude, segundo relato de testemunhas ocasionais dos encontros, era comum Jader passar o final da tarde no escritório de advocacia do ex-governador Aurélio do Carmo, no edifício Barão de Belém, na travessa 13 de Maio. Invariavelmente lá estavam Newton Miranda e Hélio Gueiros, além do próprio Aurélio, naturalmente. Esse vínculo explica o porquê de Jader, já governador, ter feito de Hélio Gueiros seu sucessor e de fazer de Aurélio do Carmo desembargador do Tribunal de Justiça do Estado (TJE).
SAIBA MAIS. LEIA:
“História do Pará” (2 volumes), livro do historiador Ernesto Cruz, edição do governo do Pará (administração Fernando Guilhon), 1973.
“Depoimentos para a História Política do Pará”, livro do jornalista e historiador Carlos Rocque, 614 págs, edição do autor, sem indicação sobre o ano da edição.
Jornal “O Liberal”, edição de 30 de maio de 1993, caderno “Painel”, pág. 4.